quinta-feira, 8 de março de 2012

UMA PAIXÃO PELOS LIVROS - CONTO POLICIAL



UMA PAIXÃO PELOS LIVROS

por
Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça
                                   
                                                                      
       Nenhuma manhã mais cinza do que esta sobre o lago de Lucerna. Estou no deque de um café, e escrevo neste diário de capa florida que acabo de comprar. Pena. Em poucos minutos toda a beleza dos Alpes se apagará de meus olhos. Acabei de ingerir a última cápsula. Mesmo assim, aspirando o ar dessas montanhas cujos topos são páginas em branco gigantescas, estou em paz com minha consciência e meu sangue.
     Mal posso crer que há dois dias estava em São Paulo, fugindo para o aeroporto internacional de Guarulhos.  Mal posso crer que acertei contas com um senhor chamado Jayme de León. Agora todos sabem que, por trás da máscara de bibliófilo e benemérito, se escondia um homem vil, ambicioso e capaz de matar para atingir seu objetivo: formar a maior coleção particular de livros raros da América Latina. Agora que minha hora se aproxima, quero registrar neste diário a verdade de como tudo aconteceu.
                                                                       
1.

      Fui uma menina cercada por uma floresta de livros. Olhando para o alto, estantes eram montanhas de papel que ameaçavam degelar a qualquer instante. Quase não via minha mãe. Ela vivia trancada no quarto de sua melancolia. Meu jovem pai, Giorgos Xenakis, era um amante dos livros e um dos maiores colecionadores do Brasil. Depois do divórcio de meus pais, nossa biblioteca encheu-se de luz. Filha única, meus dias eram povoados por histórias fantásticas e personagens enigmáticos. Eu e papai vivíamos solitários num mundo a parte. Organizávamos os livros interminavelmente, numa tranquila rotina quebrada apenas pela visita dos compradores. Era uma legião. Eu os odiava.
      O senhor Jayme de León era um dos mais assíduos frequentadores de nossa casa no Jardim Europa. Meu pai o admirava. Não raras vezes eu os flagrava conversando sobre livros e mulheres. Recordo-me bem de sua figura esguia, seus olhos azul-Van Gogh devorando cada centímetro de meu corpo em flor. Como tudo aconteceu? Eu tinha apenas 13 anos. Numa noite de maio de 1990, o senhor de León veio à nossa mansão para tentar convencer papai – mais uma vez – a vender-lhe os 12 volumes de As Mil e Uma Noites, na célebre tradução de Antoine Galland, publicados entre 1704 e 1717.
            Eu estava em meu quarto no andar superior. Ouvi vozes ríspidas e tive medo. De repente, silêncio. Chamei por meu pai. Não houve resposta. Então o o encontrei caído com a cabeça arrebentada sobre uma poça de sangue. Na porta que dava para a rua, vi o olhar atônito que Jayme de León me lançou antes de fugir. Numa das estantes, um vazio. A coleção de Galland havia sido roubada. Mas o que o criminoso não sabia era que Giorgos havia esquecido em meu quarto, quanto veio ler para mim na cama, o último tomo de As Mil e Uma Noites. O mesmo que apertei contra meu peito quando ouvi os gritos de horror.
          A dor e o choque da perda de meu pai provocaram lacunas em minha memória. A família me enviou para um colégio interno na Suíça. Mais tarde, já mulher feita, voltei para o Rio e me especializei em restauração de livros na Biblioteca Nacional. Três anos depois, quando já era uma profissional destacada em minha área, recebi um convite irrecusável: o de trabalhar na restauração de um importante arquivo particular em São Paulo. O Instituto ***, um dos acervos particulares mais fascinantes do país, era um caixote cinza na Rua Monte Alegre, próximo da casa onde morou o poeta Haroldo de Campos. Por fora, face austera. Por dentro, o luxo de um palácio demonstrava a riqueza de seu proprietário. O salário era bom. Nossa equipe era formada por seis mulheres.
        No Instituto *** ocupávamos mesas compridas e trabalhávamos com nossos jalecos e luvas brancas. Nos dias iniciais me extasiei com primeiras edições que fariam a alegria de qualquer alfarrabista. A grande biblioteca era composta de vinte mil títulos. Edições raras de Hans Staden, Jean de Léry, Machado de Assis, Guimarães Rosa e incontáveis manuscritos. Nas horas do café nos perguntávamos quando, afinal, o rico colecionador apareceria para avaliar nosso trabalho.
            Certa tarde de inverno, eu preparava os livros do século 17 que iriam seguir para um leilão da Sothebys, quando uma colega chamou-me a atenção para uma descoberta que fizera ao resgatar os livros de uma estante que havia caído. Senti uma fria onda de arrepios quando meus olhos se depararam com a familiar lombada azul puída de As Mil e Uma Noites, de Galland. Uma coleção que valeria, segundo minha colega, um milhão de dólares. Valeria, não fosse por um detalhe, ela disse: a ausência do último volume. Abri um dos livros e corri meus dedos à página 13, onde senti, no canto inferior esquerdo, as letras G e X em alto relevo. Senti uma forte náusea. Foi assim que me vi dentro da biblioteca roubada de Jayme de León. Foi assim que me deparei com a coleção que havia sido arrancada de meu pai, na última página de sua vida.                                
      
                                                     2.

       Fomos surpreendidas num final de tarde com a chegada de León ao Instituto ***. Os leilões europeus haviam sido lucrativos, sobretudo a venda dos manuscritos de Stephen Zweig conseguidos juntos à coleção do uruguaio Dubuffet. De León queria cumprimentar sua nova equipe. Logo no primeiro encontro seus olhos azuis folhearam meu rosto, meus cabelos cautelosamente tingidos de negro. Convidou a todas para uma ceia. Uma vez no restaurante, evitei seus olhos colocando meus óculos de grau. Em nenhum momento ele suspeitou de mim. Eu já havia mudado meu sobrenome legalmente para Brand, da parte de minha mãe suíça. Pouco tempo depois, ele me convidou para jantar sozinha num restaurante grego. Aos sessenta anos, de León ainda era um homem atraente. Limitei ao máximo informações sobre minha vida particular e meu passado. Durante nossas conversas, tal qual uma Sherazade, eu deleitava o colecionador com minhas histórias e conhecimentos sobre livros antigos e o mercado livreiro, minha facilidade com línguas. Ele passou a me visitar todas as tardes no Instituto ***. No décimo-primeiro encontro, Jayme confessou que estava louco por mim.

                                                     3.

      Foi então que iniciei a segunda parte de meu plano. Apagar da existência o senhor Jayme de León, página por página.
       Não contarei como, anonimamente, destruí seu casamento em poucos meses, enviando fotos dele com todas as garotas do Instituto ***, inclusive eu mesma; não contarei como, em sua embriaguez, o fiz confessar seus muitos crimes e os gravei como prova e enviei à polícia. Não contarei como ele teve de se desfazer de seus livros mais valiosos para pagar a divisão dos bens, dívidas e advogados. Apenas contarei que, numa noite, eu o levei ao mais escuro dos corredores de sua biblioteca.
      Foi fácil. Atraí sua cobiça contando que ele possuía um último tesouro que poderia salvar o Instituto ***. Sua salvação estava bem ali, ao alcance de suas mãos. Foi assim que esperei que ele ficasse exatamente onde eu queria, diante da gigantesca muralha de livros que ficava no fim do corredor. De León, agora pálida sombra decadente, me perguntou o motivo de tanto mistério. Eu me virei e apontei para uma antiga coleção. Ele deu um sorriso, reconhecendo os volumes de As Mil e Uma Noites, acariciou as lombadas, balançando a cabeça. Comentou que, por faltar o último volume, aquilo lhe custara uma bagatela. Quando seus olhos se voltaram para mim, empalideceram ao verem surgir, em minha mão trêmula, o último volume perdido de sua coleção. Então lhe revelei quem eu era. Sua face crispou.
         E a última coisa de que me lembro, antes de entrar naquele avião, são os sons horríveis de seus ossos sendo esmagados por uma avalanche de centenas de volumes.

* * *
         Redijo estas linhas porque sei que ninguém acreditará em minha história. Os jornais brasileiros mataram minha reputação, dizendo que eu seria a assassina de meu próprio pai, e que o crime teria sido testemunhado pelo livreiro Jayme de León há exatos vinte anos. Isto é completamente inverídico. Eu, Sonya Xenakis, amava meu pai. 

1 Comentários:

Às 11 de março de 2012 11:40 , Blogger Danilo Dias disse...

Como sempre, excelente narrativa. Encadeamento que que leva a atenção do início até a última linha do texto. Vivas ao Rodrigo também, dele eu só conheçia alguns poemas, seu trabalho na revista Coyote e as experiências de vida com o Paulo Leminiski relatadas na biografia do falecido poeta. Abraços.

 

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