terça-feira, 15 de março de 2011

MILARÉ ESCREVE SOBRE "ANTES"


Patrícia Selonk  e Marcelo Guerra em cena. Foto: Mauro Kury

ANTES DA COISA TODA COMEÇAR

Consagração da poética que caracteriza o Armazém Cia. de Teatro e lhe dá revelo na cena atual.

por Sebastião Milaré

Quando vê uma apresentação de “Antes da coisa toda começar” o espectador mais sensível, que tenha conhecimento de conceitos e propostas estéticas vigentes no teatro atual, de alguma maneira é arrastado a um universo ao mesmo tempo paradoxal e lógico. Não tem como apoio, balaustrada ou parapeito, a cultura naturalista, que se baseia no enredo e dele faz a narrativa cênica, na qual vigora a lógica aristotélica, de começo, meio e fim. Vê-se no território de imanências, onde o enredo – composto de vários enredos – o leva a abismos. Mas também espectadores alheios a tais conhecimentos, porém sensíveis, se deixam arrastar pelos atores a esses abismos, como prova o sucesso do espetáculo em suas temporadas.

Verdadeiro poema cênico no qual palavras e imagens se completam e se constroem organicamente aos olhos do público. E coroa a parceria do poeta e dramaturgo Maurício Arruda Mendonça com o diretor e dramaturgo Paulo de Moraes, que vem de longa data. Remonta ao final da década de 1980, quando o grupo se formou em Londrina, PR, com o nome de Companhia Bombom. Diálogo de dois poetas que amadureceram juntos e em companhia de poetas-atores, participantes das mesmas utopias, da mesma visão de mundo transubstanciada em arte. 

Falar do enredo de “Antes da coisa toda começar” é o mesmo que falar de enredo em poesia. Quando existe, não é mais do que uma pista, sinalização da terra para pontos siderais. Existe no universo de abstrações, sítio em que a palavra o destrói e avança a páramos superiores, às regiões inefáveis do espírito. 

O co-autor e diretor Paulo de Moraes expõe a proposta temática em texto publicado no programa de mão: “O espectro de um ator abre a cena. Solitário e enclausurado em si mesmo, começa a materializar lembranças corporificando a memória. A partir daí a coisa toda começa, ou recomeça”. Explica que “dessa corporificação surgem três personagens que espelham as facetas desse espectro”. E é bem incisivo: “São aspectos de uma mesma vida, estações, fractais, alegorias, cacos de espelhos colados do jeito que deu. O espectro não é mais um, inteiro, inquebrantável. É três agora”. E a proposta realiza-se plenamente em cena. 

“Algo que nos levita/ asas & sonhares/ brilhos que espelhos flertam/ rosto que não retorna/ a certa altura da vida”. 

(“Persona” – Maurício Arruda Mendonça)

Os três personagens e suas histórias são o mesmo personagem, com a história estilhaçada em possibilidades, porvires nebulosos, sonhos e frustrações, ânsias e esvaziamentos. O Espectro do Ator (Ricardo Martins) é sim um personagem: o Ser Humano. Todo homem é um ator frustrado em busca desesperada da plenitude, que como a areia sempre lhe escapa entre os dedos. A metáfora ilumina-se em Téo (Thales Coutinho), um ator em crise. Nele o jogo de espelhos se evidencia. Ator de ofício, com sofrimento constata sua canastrice. Que Ser Humano não sofreu igualmente por sua canastrice na vida? O passo em falso; o que devia falar e não foi dito no momento apropriado; o que foi dito e se desdobrou em dissabores... São tantos os descaminhos entre o Eu e o Outro, seja no teatro ou na vida “civil”.

Dentre as muitas camadas que levam a algum entendimento dessa faceta do personagem, irradiado pelo Espectro do Ator, comandante das ações cênicas, aflora certa ironia dos dramaturgos em relação aos contraditórios conceitos do teatro de hoje. O que o personagem nega, a trama afirma. Nega, por exemplo, o inconsciente coletivo como ambiente da interpretação dramática, sendo ele mesmo um arquétipo, contracenando com outros arquétipos, produtos do inconsciente coletivo. Afirma que o objetivo do teatro é contar uma história, de certo modo contrapondo-se à mais importante tendência teatral contemporânea, que é desvendar visões exemplares do indivíduo em choque com o meio através não da biografia do sujeito, mas de situações dramáticas, como é a tessitura de “Antes da coisa toda começar”. Esta posição, no entanto, é ambígua: mediante fragmentos, situações impactantes e abstrações, continua-se no teatro a contação de histórias. Mas não à maneira de um Alexandre Dumas ou um Jorge Amado, e sim de um James Joyce ou um Guimarães Rosa, que invadem os sentidos mais profundos da palavra, reinventando os significados e construindo o mundo através de novos significantes. Estado que o espetáculo traduz, enriquecendo os sentidos da palavra com imagens, sons, projeções luminosas.

A crise do ator reverbera também na experiência de Léa (Rosana Stavis), cantora que tentou o suicídio, mas não quer morrer. O suicídio propiciou-lhe o mergulho nas situações que perfazem suas desesperanças. Reverbera, igualmente, em Zoé (Patrícia Selonk) e seu irmão (Marcelo Guerra), a unidade do Bem e do Mal separada em dois corpos. Um não pode existir sem o outro, mas quando o Bem se contamina pelo seu oposto e opta pelo Mal, não há como fugir ao precipício. 

“Nada a não ser/ destinos perdidos/ dor não se remove/ sem tortura/ a geada queima/
 a flor mais pura/ Nada a não ser/ esse repentino fenecer.” 

(“Friagem” – Maurício Arruda Mendonça)

As fronteiras entre a vida e a morte constituem a esfera em que se movem esses seres, fragmentos do Um. A própria Morte é corporificada (Simone Vianna) nas figuras de uma enfermeira e de uma puta, materializando no palco “esse repentino fenecer”. Vastas fronteiras habitadas pela solidão e pela angústia existencial, reveladas numa encenação rica de efeitos. Afaste-se desde já a idéia dos efeitos meramente impactantes ou embelezadores da narrativa. A intuição poética de Paulo de Moraes, municiada pela imaginação fértil e notável habilidade artesanal, recorre aos efeitos em termos estritos de linguagem plástica, que se harmoniza com as palavras e amplia os significados da trama, conduzindo-os às imanências através da luz, do som e dos espaços. Projeções de vídeo revestem a cena com formas e cores magníficas e, sublinhadas pela música, plasmam esses fragmentos humanos no limbo. Paredes avançam e se afastam criando espaços amplos ou ínfimos, produzindo sensações de liberdade ou claustrofobia. Luz que penetra as sombras para revelar o ser se debatendo na solidão, de repente abre-se toda, branca e fria, evocando a crueza hospitalar, umbral do Nada. 

Neste capítulo, dos diferentes meios com as respectivas técnicas convergindo à linguagem do espetáculo, acha-se um dos valores sempre presente no trabalho do Armazém Companhia de Teatro. Apresentam-se aqui profissionais de alto nível vestindo a camisa do grupo, absolutamente comprometidos com a proposta estética colocada. É o caso da música e direção musical de Ricco Viana, que não surge como realce de momentos dramáticos: estabelece contínuo diálogo com os temas do discurso poético, com os atores/personagens, com os efeitos cênicos. Ou do vídeo de Rico Vilarouca e Renato Vilarouca que conduz o discurso a patamares oníricos. Ou da iluminação de Maneco Quinderé, que neste trabalho reafirma-se como um dos melhores iluminadores da nossa cena. Além dos cenários projetados e desenhados por Paulo de Moraes em parceria com Carla Berri, afastando a idéia de “decoração” ou “ambientação” em favor da poesia vertida em estrutura material, arquitetura cênica eloqüente, que também dialoga com os personagens e as situações propostas.

“Não te encanes, pensamento/ És perigo ligeiro/ És pegada do destino/ Sina de peregrino/ Sandália de passageiro.”

(“Andeiro” – Maurício Arruda Mendonça)

Mas de nada serviria tanto brilho, talento e competência dos “criadores de efeitos”, ou da excelência dramatúrgica, sem a contrapartida dialógica do elemento essencial do teatro: o ator. Neste capítulo, todavia, o brilho do Armazém ofusca. Atuadores que encaram de frente o “perigo ligeiro” do pensamento, mantém-se na “pegada do destino”, com a humildade do peregrino frente à sina, nada mais querendo ser senão a “sandália de passageiro”. Desde as sutilezas interpretativas de Patrícia Selonk, que vai do solilóquio intimista à explosão dramática sem perder a coerência nem se desviar da humanidade do ser que representa, ainda que simbólico, até a densidade interpretativa de Thales Coutinho, que se condensa em lágrimas pungentes, para logo mais levar a platéia ao riso, sem qualquer artifício, quer dizer: seguindo rigorosamente as contradições do personagem em fluxo contínuo. E o que falar de Ricardo Martins, que se encarrega do Espectro do Ator e do travesti Rufus? Dois tipos em si mesmos estereotipados, que convidam o ator à caricatura histriônica, são aqui construídos com admirável dignidade artística, sem concessões ao gratuito. E Rosana Stavies, que entrou substituindo a maravilhosa Simone Mazzer no papel de Léa, navega pelos sentimentos contraditórios do personagem, em comovente sinceridade, absoluta entrega e rigorosamente desenhadas emoções. O mesmo rigor interpretativo nota-se no elenco de apoio, integrado por Marcelo Guerra, Simone Vianna, Camila Nhary, cada qual se encarregando de pequenos papéis, que fermentam as situações das personas desdobradas do Espectro. Conjunto homogêneo, tanto nas técnicas quanto no entendimento da proposta estética a que dá vida em cena. 

O que mais fascina no elenco é a diversidade de tipos, que não leva, no entanto, à dispersão dos temas. Estão todos executando a mesma partitura, observando meios e procedimentos peculiares de um grupo formado com o propósito de se aprofundar na arte do ator e, ao mesmo tempo, criar sua própria dramaturgia. Ao longo da trajetória, que já superou duas décadas, desenvolveu técnicas adequadas à linguagem pesquisada, que resultou em belos espetáculos e chega à depuração neste “Antes da coisa toda começar”. 

Com alegria sempre renovada assistimos, desde meados dos anos 1990, ao crescimento do teatro brasileiro. Esgalhou-se pelo território nacional reinventando-se em modos de produção e distribuição, incluiu platéias indo às periferias ou nelas se estabelecendo, floresceu nas mais diversas linguagens estéticas e, de vez em quando, surpreende com espetáculos primorosos e altamente significativos. Por isso, “Antes da coisa toda começar” não é exceção, mas brilhante exemplo dessa nova fase do nosso teatro. Afaste-se a idéia de casuísmos, do “acertou a mão”, ou do “deu certo”. É fruto do trabalho diuturno de artistas amantes do ofício, buscando sempre o aprimoramento cultural, discutindo em grupo temas importantes deste momento histórico e procurando, no coletivo, desenvolver técnicas que possibilitem a expressão do pensamento crítico sobre esses temas e viabilizem sua comunicação ao espectador. Com inteligência e persistência esses grupos levam o teatro atual à altura do nosso teatro em seu melhor tempo (os anos 1960). Não por acaso muitos se referem à atual fase como “renascimento”. Frente a uma obra como “Antes da coisa toda começar” é legítimo imaginar que logo o renascimento se reverterá em benefícios para o país, tanto no nível cultural e espiritual quanto no nível material. 


Nota: Os poemas de Maurício Arruda Mendonça citados no texto são do seu livro “A sombra de um sorriso” (Londrina: Atrito Art Editorial, 2002).


Extraído da revista eletrônica Antaprofana

1 Comentários:

Às 25 de março de 2011 20:42 , Blogger Roseli disse...

Hoje tive a oportunidade de contemplar o enredo desta peça, fiquei encantada com a sonoplastia e com atuação dos atores, parabéns a todos de rosely.mendes1@itelefonica.com.br

 

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