terça-feira, 28 de abril de 2009

O ARROMBADOR


Era o ano da primeira grande safra de Londrina. O dinheiro circulava. Fortunas nasciam. E a cobiça também. Naquele tempo Londrina era uma jovem rica. E excitava as mentes criminosas mais ousadas.

Pensão

Poucas informações restaram sobre a passagem do topógrafo John Fairbanks por Londrina no começo da década de 1940. O que se sabe é que tinha um rosto bonachão e vermelho, pois gostava de tomar seu “drink” todo o final de tarde, e rir de chorar das piadas sujas que os brasileiros lhe contavam no bar. Fairbanks chegara a Londrina sem contar a sua história. Desceu do trem e procurou um quarto para instalar sua prancheta de desenho, seus instrumentos de agrimensura e seu rádio Mullard. Escolheu a pensão da dona Lúcia Olivério que ficava na Avenida Rio de Janeiro, área central. Por causa de suas tralhas ele insistiu em ocupar um quartinho que ficava nos fundos do terreno e que, a princípio, funcionava como despensa.
Dona Lúcia foi justa e acertou um preço mais em conta por causa da precariedade do aposento. Fairbanks agradeceu beijando a mão da dona da pensão.
Dona Lúcia era uma viúva, sem filhos, de seus quarenta anos, enxuta e ainda bonita. Fiscalizava a vida de seus hóspedes para que não abrigasse nenhum mau elemento e, principalmente, não levassem mulheres para dentro dos quartos. Sua pensão oferecia lavadeira e servia almoços. E assim que pôs os olhos no topógrafo simpatizou-se com aquele inglês com jeitos de gentleman.

Dardanelos

Patrício dos engenheiros da Companhia de Terras, logo Fairbanks começou a pegar serviços de medição de terras nas redondezas. Preferia os serviços pequenos. Era moderado e ganhava o suficiente para bancar sua bebida, seu tabaco e as despesas básicas. Ao contrário da maioria, não buscava amealhar fortuna e conquistar prestígio pessoal. Dava a entender que era anglicano e vez por outra citava de memória certos Provérbios da Bíblia. Estando bêbado, numa conversa de bar Fairbanks teria deixado escapar que fora Capelão do exército britânico na Campanha de Dardanelos durante a Primeira Guerra Mundial. Porém, depois daquela terrível carnificina perdeu a fé e largou a batina.
Mas o fato é que o inglês era topógrafo caprichoso e com amplos conhecimentos de cálculo. Dizia que quanto mais bebia, mais ficava lúcido, e atravessava dias desenhando os mapas com as demarcações das terras que media. Os mapas eram desenhados com precisão e reproduzidos em cópias heliográficas que ele mesmo preparava. O único detalhe que chamou a atenção de dona Lúcia é que ele gostava de ouvir música no rádio em volume alto.

Safra

Mesmo sendo um desprendido, Fairbanks começou a prosperar. Tinha escolhido mudar-se para Londrina no momento certo. A cidade vivia a euforia de sua primeiríssima safra recorde de café. O húmus da floresta recém abatida ajudava a manter a riqueza da terra vermelha. Era a natureza sendo generosa apesar da ação predadora dos seres humanos. Pelas ruas as pessoas pareciam estar sonhando acordadas. Sentiam-se como se estivessem num paraíso onde todos os desejos pudessem ser realizados. Afinal, podiam ter tudo o que o dinheiro conseguia comprar. Era um fausto, um espetáculo de riqueza que chamava a atenção do topógrafo inglês quando ele via, da janela de seu quarto, sitiantes transportando uma quantidade enorme de sacos de dinheiro para serem depositados no Banco Noroeste, que era vizinho da pensão de dona Lúcia.

Metódico

Dona Lúcia se interessara cada vez mais por aquele homem. Apesar de vez ou outra ele voltar de noite para a pensão completamente bêbado, ele não descuidava de seus compromissos e de sua rotina. Sempre pagava com pontualidade o aluguel e acordava muito cedo para trabalhar. Inclusive, todos os dias dona Lúcia podia vê-lo sair carregando um fardo nas costas e ir até o bosque. Na volta ele trazia o saco vazio. É que, dizia o topógrafo, ele era amante da botânica e trazia mudas de plantas exóticas que encontrava nas medições de terra e as transplantava para o bosque, a fim de enriquecer a flora daquela área de preservação. Após o café, enfurnava-se no quarto, ligava o rádio, e começava a desenhar seus mapas, pedindo expressamente para não ser interrompido.

Flerte

Não demorou muito para que dona Lúcia começasse a nutrir sentimentos por Fairbanks que percebeu tudo, e iniciou um flerte discreto que agradou muitíssimo à dona da pensão. Quando voltava da rua Fairbanks era sempre saudado com um sorriso da bela mulher. Mesmo assim ele mantinha distância, evitando quiçá uma aproximação precipitada. Agia como alguém que precisasse de tempo para se acostumar ao fato de que uma mulher o desejava. Pelos modos viris, dona Lúcia tinha certeza de que ele não era nem um santo, e que sabia muito bem do que uma mulher viúva precisava.
Certo dia, dona Lúcia foi mais ousada. Saiu do banho de toalha justamente quando Fairbanks estava passando. E mais. Deixou a porta de seu quarto entreaberta. Como o topógrafo não entrasse, bateu a porta com um estrondo.
Passados exatamente dois meses veio a surpresa. John Fairbanks entrou subitamente pela cozinha da pensão e convidou dona Lúcia para a festa em comemoração à safra, que aconteceria naquela noite no pátio da igreja matriz de Londrina, logo após a missa. Haveria barracas, comidas, atrações. Dona Lúcia achou romântico e instantaneamente imaginou-se caminhando de mãos dadas pela praça da matriz dizendo “I love you” para seu príncipe encantado. Fairbanks disse que antes teria de levar um mapa de terras para um cliente de Rolândia, e marcou de encontrá-la pontualmente às nove da noite na porta da matriz. Despediu-se com um beijo no rosto dona Lúcia e foi para o seu quarto. Ligou o rádio no último.

Burglary

A pensão estava vazia. Ninguém perderia uma festa daquelas. O único que permanecia ali era John Fairbanks. Mas quem pensava que o encontraria dentro do quarto desenhando sobre a prancheta se surpreenderia. O que se via ali eram marreta, picareta, pá, serras, limas, baldes, sacos de estopa, tocos de vela. Mais para perto da parede podia se ver um buraco cuidadosamente aberto. Naquele momento, através de um túnel pacientemente cavado durante sessenta dias, se arrastava o inglês em direção ao Banco Noroeste, que ficava a poucos metros dali. Eram quase oito e meia da noite quando Fairbanks conseguiu arrebentar o piso do compartimento onde estava o cofre do banco. Assim que pôs-se de pé acendeu uma minúscula vela que iluminou as formas austeras do grande cofre. Abriu uma valise de onde sacou uma série de instrumentos de arrombamento, depois, com o ouvido encostado no cofre começou a decifrar o segredo que abriria a porta para a fortuna.
Exatamente quando o relógio marcava nove horas começou a queima dos fogos de artifício no pátio da matriz. Os estrondos pirotécnicos pareciam comemorar o sucesso de Fairbanks, que acabara de abrir o cofre e estava contemplando os incontáveis milhões da grande safra londrinense ali depositados. Iniciou, então, uma fria e mecânica luta contra o tempo. O inglês queria levar a maior quantidade de dinheiro que pudesse colocar em sacos e atravessar do outro lado do túnel, o mais rápido possível. Seu objetivo era chegar antes das três da manhã até a outra margem do Rio Tibagi, onde um comparsa o estaria esperando com um automóvel. John Fairbanks (certamente um nome falso) não era nenhum principiante.

Vazio

Dona Lúcia estava literalmente arrasada quando perguntou a hora ao pipoqueiro e ele lhe disse “dez e meia”. Sentia que tinha acontecido alguma coisa para o seu príncipe inglês não ter sido pontual. Assim, com seu melhor vestido, ela desceu melancolicamente a Avenida Rio de Janeiro em direção à pensão. Nem entrou em casa. Foi direto aos fundos até ao quarto do topógrafo. Surpreendeu-se que a porta estivesse entreaberta. Encontrou o aposento vazio. Apenas uma vela estava acesa sobre uma prancheta lançando sombras fantasmagóricas. Perto da vela havia um gordo maço de dinheiro e um bilhete onde estava escrito: “Teu amor me trouxe a grande sorte.”
Após o assalto àquela hora todos os sitiantes Londrinenses estavam irremediavelmente quebrados. A festa havia sido em vão. O sonho não durara uma noite. Dona Lúcia foi até o canto do quarto e viu um buraco profundo e escuro. Apertou o maço de dinheiro contra o peito e começou a rir.

(Publiquei este conto na
Folha Norte há um ano atrás. A gravura que ilustra o conto é de instrumentos utilizados na Arte de Arrombamento)

11 Comentários:

Às 29 de abril de 2009 10:53 , Blogger Paulo de Moraes disse...

Bacana demais. Aconteceu algo parecido com isso naquela época ou é pura ficção da boa? Beijo.

 
Às 29 de abril de 2009 13:29 , Blogger Maurício Arruda Mendonça disse...

Ficção a partir de uma foto da agência do Banco Noroeste do final dos amos 30 e do fato de que havia uma série de pensões por essa época. E claro, bandido é o que não faltava, nacionais e estrangeiros, durante aquele período.

 
Às 1 de maio de 2009 05:15 , Blogger folha na floresta, blog do yuri de v. sampaio, vim de longe, pelo fio do telefone e nas ondas espaciais disse...

very nice pra chuchu

 
Às 2 de maio de 2009 13:53 , Blogger Celia disse...

História fantástica..e, tendo se passado em Londrina, a gente jura que é tudo verdade!! rs Um bj!

 
Às 6 de maio de 2009 15:49 , Blogger Marcos Martins. disse...

vc sabe como isso bate certeiro pois minha mãe teve várias pensões e estes personagens existem mesmo, bateu legal, abçs.

 
Às 11 de maio de 2009 12:29 , Blogger claudia disse...

Muito bom! E como os outros já disseram, bastante crível. Beijos. Claudia

 
Às 11 de maio de 2009 16:57 , Blogger Maurício Arruda Mendonça disse...

Claudia, curiosa essa coisa de parecer crível... Creio que o barato da ficção é justamente esse, ser uma verdade possível. Bjs.

 
Às 14 de setembro de 2009 06:50 , Blogger P A R A L E LO disse...

Acabei de ler um livro de Daniel Wallace "PEIXE GRANDE" e nada se compara com esta subtileza de narrar uma situação, no livro de Wallace a impressão que temos é que o autor partiu para uma comicidade irreal enquanto que no conto de vossa autoria o leitor iludisse entre o real e a ficção, isto é que o máximo de escrever, continue assim, parabéns!

 
Às 17 de setembro de 2009 07:23 , Blogger Maurício Arruda Mendonça disse...

Valeu, amigo! Muito obrigado pelos imerecidos elogios. Abraço.

 
Às 20 de março de 2010 04:52 , Blogger Дlµιѕισ Neto disse...

Nossa, o Google me troxe até aqui acidentalmente e não é qe adorei,...
Está de parabéns, você sabe mecher com a nossa imaginação... :)

aluisio_neto@hotmail.com

 
Às 20 de março de 2010 09:23 , Blogger Maurício Arruda Mendonça disse...

Obrigado aí, Aloisio! E viva as descobertas dessa sadia maluquice que é a rede! Abraço!

 

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