sexta-feira, 10 de abril de 2009

João Antonio passeia por Londrina

João Antônio, escritor de categoria, jornalista apaixonado, homem que amava o povo brasileiro e compreendia como poucos a psicologia do malandro, do jogador de sinuca, do perdedor, dos alcagüetes, das meninas da zona e de toda aquela fauna de almas que fazem da noite um esplendor de glória e de dor. O escritor que falava da vida urbana, dos moradores dos bairros distantes com seus tipos populares e costumes diferentes, foi autor de um dos mais importantes livros da literatura Brasileira: Malagueta, Perus e Bacanaço publicado em 1963, e que faturou o maior prêmio literário do país, o Prêmio Jabuti, quando João Antônio tinha 26 anos. O conto que dá nome ao livro conta a história de três sinuqueiros escolados, se virando na noite paulistana para tirar uma grana no jogo. Uma verdadeira aula que mostra que no perde-e-ganha da vida em que “a gente cai, a gente levanta, na queda já se aprendeu. Pode ser que ali na esquina a gente dê sorte.”

Vida

João Antônio em nasceu em Presidente Altino, distrito de Osasco, na grande São Paulo, em 1937. Nasceu numa família pobre. Seu pai era um português dono de botequim, e sua mãe uma mulata batalhadora como toda mulher humilde. Rueiro, João começou cedo na arte da escrita e da vida boêmia. Descobriu o cigarro, o conhaque e a cerveja, as mulheres da vida (suas primeiras namoradas), a mesa de sinuca e toda a alta malandragem de São Paulo. Em pouco tempo, pai, mãe, avó, e até seu irmão mais novo concordavam num ponto: João era a “ovelha negra” da família. Só que João tinha talento com as palavras. Escrevia a mão mesmo, dizendo o texto em voz alta. Só depois datilografava. Gostava de sentir palavras uma por uma, curtir o som, o sabor, o suor, a sensualidade, a doçura e a porrada de cada palavra. Mas não enfeitava. Era um escritor sem frescura. João também dizia que qualquer boteco é lugar bom para escrever, quando quem escreve tem a gana de dizer algo importante pro leitor. Um escritor honesto e decente. João Antônio nunca escreveu com hipocrisia, pra agradar, pra puxar o saco de quem quer que seja.

Aos 27 anos João Antônio foi convidado para ser repórter do Jornal do Brasil e se mudou para o Rio de Janeiro, cidade que escolheu como residência fixa. Não parou mais. Além de ter escrito mais de quinze livros, João trabalhou intensamente como jornalista nos maiores jornais do eixo Rio-São Paulo, participando da equipe que criou a lendária revista “Realidade”, verdadeiro marco na história do jornalismo inteligente de nosso país. Foi João também quem criou a famosa expressão “imprensa nanica” para designar os jornais alternativos do período da Ditadura Militar que se instalou no Brasil em 1º de abril de 1964. João andou por todo o Brasil, conheceu muitos Estados e cidades, sempre com seu olhar no submundo, onde as coisas costumam ser nuas e cruas, sem máscaras, e cujos enfeites servem mais para iludir do que para adornar. Esse universo onde malandros e otários disputam um jogo malicioso onde arrancar um trocado, faturar o rango, a birita, a mulher, o narcótico, significa a própria sobrevivência da espécie.

O escritor das ruas acostumado com a malandragem paulista e carioca um belo dia resolve baixar em Londrina a convite de amigos jornalistas. Chegou e pasmou. Entre 1974 e 1975, João veio trabalhar no jornal “Panorama” de Paulo Pimentel. Na redação estavam: Narciso Kalili, Délio César, José Trajano, Domingos Pellegrini Jr; os cartunistas Jota e Jayme Leão, Mylton Severiano, Bernardo Pellegrini, a fotógrafa Elvira Alegre, entre muitos outros profissionais de calibre. Nem bem João Antônio chegava a Londrina e já a direita municipal tem um chilique. Corria a notícia de que Paulo Pimentel “trouxe um bando de comunistas” para fazer o “ Panorama”.

João Antonio: um rolé por Londrina

As matérias que João Antônio escreveu no “Panorama” são verdadeiras obras-primas literárias. Londrina é radiografada em toda a sua deslumbrante contradição de cidade de muitas raças, grana e paixões proibidas. Não havia dúvida. Assombrado com a poeira vermelha que manchava os carros, as roupas, as unhas e até as notas de dinheiro, o escritor sacou que Londrina era um inferno e céu enlouquecido onde ricaços e prostitutas, picaretas e jacus encenavam o mesmo velho jogo de malandros e otários que ele havia longamente observado ao redor das mesas de sinuca de botecos muquifentos de São Paulo e Rio de Janeiro. Só que em Londrina havia corrido dinheiro grosso. Dinheiro do café. Mesmo chegado pouco antes da trágica geada de 1975, que arrasou os cafezais do Norte do Paraná, João Antônio conseguiu compreender que a jovem Londrina era uma cidade rápida, uma cidade moderna em plena transformação, onde “o mais bobo acende o cigarro no relâmpago”.

Logo de cara, João notou o sotaque londrinense, com seus “r” mordidos, uma jeito de falar caboclo que lembrava o interior paulista. Sacou de prima que a referência cultural do Londrinense não era capital Curitiba, mas São Paulo. Como malandro vivido e jornalista antenado, a primeira providência foi catar um ônibus e dar um rolê pela cidade vermelha para entendê-la mais. Meteu-se num ônibus que fazia a linha Parque Waldemar Hauer/Shangri-lá. Percebeu que o londrinense é menos expansivo do que o povo do Rio de Janeiro, com sua camaradagem, seu narcisimo gingado; mas era mais respeitoso e atencioso do que o paulistano. Para João, o povo dos ônibus era humilde, meio quieto. Não tão festivo quanto o carioca, mas não tão carrancudo e fechado como o da capital paulista. João desceu no Shangri-lá e contemplou as alamedas, as casas chiques com seus grandes jardins. Na sua visão o Shangri-lá lhe lembrava um trecho de uma cidade do interior Estados Unidos. Porém, atravessando a antiga linha de trem, sentiu que caía num outro mundo: o Jardim do Sol, para ele, ali começava o mundo da pobreza, uma outra cidade, uma Londrina de pés no chão. Entre os bairros, a diferença: riqueza e pobreza, mansões e favela — o ar parado e “mais quente do que o Rio de Janeiro” deixou João Antônio com a pulga atrás da orelha: o que era essa “misturação humana” onde cabem milionários, miseráveis, polacos, italianos, japoneses, libaneses, mulatos e malucos?

João, mestre da arte de bater perna, gasta sola de sapato, desce pras bandas da Rua Sergipe e se depara com a prostituição de rua, com suas meninas e travestis com ar de cansaço e a cafetinagem fuleira. Fuçador, poeta da precariedade humana, João cruza a Vila Higienópolis onde vê as pessoas mais bonitas da cidade, segue pela Avenida da Saudade, entra no cemitério João XXIII, de onde avista algumas casas de madeira dependuradas numa encosta do vale do Córrego Água Fresca. Era a famosa a Favela do Pito Aceso. João vai lá e é bem recebido por um garoto que lhe explica em detalhes todas as manhas da criação de galos de briga, “esporte” que fazia a fama da favela em toda Londrina.

Já num outro extremo da sociedade, numa noite João vai parar, convidado por amigos, numa bem comportada festa da classe média londirnense, com suas conversas amenas, pessoas recatadas e ambiente sem graça. É, pela primeira vez em sua vida, convidado a se retirar: “O senhor me desculpe. Mas não posso aceitar pessoas que não conheço em meu apartamento.” João Antonio sai. Mas, se segura o mais que pode e elegantemente diz para a dona da casa: “A senhora faz muito bem em preservar a dignidade de seu lar. E eu faço questão absoluta de não conhecê-la”. Com certeza, a distinta e desinformada senhora não sabia que estava botando pra fora simplesmente um dos maiores escritores do Brasil.

A zona e o poeta da noite

Mas o que encantou João Antônio foi compreender de onde vinha a mistura social, cultural e racial de Londrina. Começou a compreender porque as pessoas com grana comiam como reis. Era a herança dos tempos da riqueza cafeeira onde um simples taxista poderia ser produtor rural, dono de casas de aluguel e pescador inveterado. Foi assim que João Antônio escreveu “Os Anos Loucos de Londrina”, uma obra-prima sobre os tempos fabulosos de Londrina no auge do café, mais especificamente entre os anos de 1949 a 1953. No texto, João fala daquilo que tornou Londrina famosa em todo Brasil: a sua fantástica Zona do meretrício, onde pululavam picaretas, rufiões, mulheres lindíssimas que chegavam aos “lotes” no aeroporto e desfilam em carro aberto, cantoras e cantores famosos, atrações refinadas para entreter fazendeiros riquíssimos, vendedores abridores de terra. João analisa o paraíso “pra baixo da linha”, onde em temporada de chuva, o sujeito poderia ficar vivendo longe da repressão moral do centro da cidade em dias de festança e gastança, comendo, bebendo do bom e do melhor no restaurante do Toninho.

João Antônio descreveu bem aquele momento onde “noivos desmanchavam compromissos, fogem levando a concubina consigo. Maridos desnorteiam-se, rapazes bonitos viram gigolôs, amores inesperados explodem, gloriosos e malditos. Há tiroteio na disputa de uma mulher, há tentativas de suicídio. Era um ambiente de amor espúrio e camaradagem entre boêmios alegres e endinheirados, como jogos e arrumações. Naquelas libações do brega, reunia-se o alto mundo do café no Brasil, firmando negócios de compra, venda, troca, exportação. Todo grande negociante de café é, em geral, grande boêmio, maneja dinheiro grande e viaja intensamente.”

Casas de luxo e prazer eram a Diana, entre tantas outras. O dinheiro construía edifícios moderníssimos, mas pagavam devassidões e excessos do mais alto luxo. Na zona não se tomava cerveja, que era coisa de pobre. Tomava-se whisky legítimo, vinho português e champanhe francesa. As camas eram arrumadas com lençóis de linho. E havia toda uma técnica de romance, diz João Antônio. “Não se ficava de imediato com a mulher escolhida no bordel. Havia uma técnica de romance, namorava-se, ia-se duas ou três vezes, presenteava-se, mimava-se. Só depois, o ato. Também as profissionais não fixavam preço, taxativo, inflexível, frio, duro, antipático. Mas isso gerava um pagamento inesperado, decuplicado (10 vezes maior), que poderia jorrar a qualquer momento. O lucro era certo e grande, no fim.” Os homens do café e os corretores era generosos. Mas havia preconceito, claro. E feroz. As prostitutas tinham hora certa para andar por Londrina.

João Antônio, amante da noite, escritor e jornalista de fé, poeta dos humildes, dos malacos, dos perdedores, dos duros, dos desprezados, dos feios, dos marginalizados, era um ser humano dotado de intensa sensibilidade para o sofrimento e com coração imenso repleto de compaixão por essas figuras sem história, mas cheias de vida. Passou por Londrina e deixou algo dele. João Antônio não poderia ser mesquinho jamais. Para ele escrever era “um ato de coragem e humildade”. Morreu em 1996, em São Sebastião do Rio de Janeiro.

(Escrevi essa artigo para a Folha Norte em 2006 por ocasião dos 10 anos de falecimento do autor que teve uma passagem memorável pela velha Londrina.)

15 Comentários:

Às 10 de abril de 2009 18:56 , Blogger Guiga disse...

"malaguetas, perus e bacanaço" é uma obra prima, estou me devendo "leão de chácara"

 
Às 10 de abril de 2009 20:04 , Blogger Maurício Arruda Mendonça disse...

Tremenda obra-prima, com certeza!

 
Às 13 de abril de 2009 06:17 , Blogger edson coelho disse...

conheci joão antônio em copacabana, apresentados pelo jornalista e escritor carioca nelson vasconcelos - bebemos todos os chopes, ele fez uns autógrafos para mim e para "a galera de belém" e a viagem ao rio ficou mais bonita e importante. depois, numa redação em belém, coube a mim editar o material sobre a morte do escritor. porra, ainda bem que, com suas obras, ele já tinha mandado a morte para o beleleu.

 
Às 13 de abril de 2009 06:23 , Blogger Maurício Arruda Mendonça disse...

Poxa, Edson. Que passagem bacana! É isso aí. O cara conseguiu escrever livros vitais antes da velha senhora catar ele. Você já leu a biografia do J. A.? Não me recordo o nome da editora (li emprestado), mas é assinada pelo Mylton Severiano. Vale a pena dar uma lida. Abraço! Ah, e viva Belém!

 
Às 15 de abril de 2009 12:36 , Blogger Márcio Américo disse...

E aí Mauricio, bem vindo ao mundo dos blogs!

 
Às 15 de abril de 2009 18:26 , Blogger Maurício Arruda Mendonça disse...

Valeu, Mr. Américo, o meninão do Kichute! Abraço.

 
Às 9 de outubro de 2009 19:06 , Blogger Maria Célia disse...

Muito bom artigo. A turma da patuléia (escritores, jornalistas,professores, engraxates, gente empaletozada, esmoleiros, policiais, expedienteiros, homossexuais, executivos apressados, os babaquaras, os trouxas, panacas coiós, mondrongos) aplaude. Só há um engano de digitação: João se foi há 13 anos. Viver é aturdir-se,não é?
Escreva sempre Maurício. Seu texto flui e, como diria João em Abraçado a meu rancor, não tem a linguagem do verbalismo palavroso da profissão.
Estou escrevendo uma meio biografia de João Antônio, gostaria de falar com essa turma que o conheceu.

 
Às 12 de outubro de 2009 18:15 , Blogger Maurício Arruda Mendonça disse...

Oi, Maria Célia! Parece-me que existe uma biografia do João Antonio escrita pelo Miltainho. De qualquer forma existem alguns jornalistas que conviveram com ele em sua passagem por Londrina. Grande abraço.

 
Às 13 de outubro de 2009 17:29 , Blogger Maria Célia disse...

Existem duas: Uma do Miltainho e outra do Rodrigo Lacerda. Mas como comigo ficou o último depoimento... Vou escrevê-la... Vou inscrevê-lo...
Forte abraço,
Por sinal, você conhece Antônio Fraga?

 
Às 14 de outubro de 2009 07:41 , Blogger Maurício Arruda Mendonça disse...

Poxa, Maria Célia! Eu não conheço a do Rodrigo Lacerda... Preciso correr atrás. Também a que vc fará me interessa, claro! Dou a maior força. Pô, também não conheço o Antonio Fraga... Precisaria de uma refrência para ver essa alguém daqui tem a pista dele. Em todo caso fico feliz que o João Antonio continue gerando tanta energia boa pra tanta gente. Abraço.

 
Às 6 de agosto de 2012 19:28 , Blogger Alvarêz Dewïzqe disse...

Cara, sorte a minha pesquisar "João Antonio" no google e dar de cara com esse seu texto. Grande!

 
Às 8 de agosto de 2012 11:32 , Blogger Maurício Arruda Mendonça disse...

Valeu, Alvarêz! Sorte mesmo é a gente ter um grande escritor como o João Antonio. Que ele seja sempre lido e lembrado!

 
Às 28 de novembro de 2012 06:01 , Blogger ANTONIO CABRAL FILHO disse...

Ôi Maurício, tudo de bom! Cheguei aqui palas mãos do João Antonio...Oh, não ri. É que eu saí pesquisando sobre ele; e estou elaborando um "personagem" baseado nele; escrevo contos, poemas e crônicas; quando puder, acesse http://blogdopoetacabral.blogspot.com.br e/ou http://letrastaquarenses.blogspot.com.br ABRAÇOS DO CABRAL

 
Às 28 de novembro de 2012 17:22 , Blogger Maurício Arruda Mendonça disse...

Beleza, Cabral! Seja bem vindo. Chegar aqui pelas mãos do grande João Antonio é uma honra. Vou até seu blog. Abraço.

 
Às 12 de janeiro de 2015 09:06 , Blogger LÉLIO CESAR disse...

Maurício, duas coisas preciso dizer:
Bela a homenagem a João Antônio e belíssima crônica sobre minha querida Londrina,. Tenho uma crônica que escrevi sobre a Zona do Meretrício que irá para outro livro sobre Londrina, há algunas anos e devo publicá-la brevemente no site LONDRINA-MEMÓRIA VIVA. Aliás, esta crônica do José Antonio cabe perfeitamente lá, se você autorizar. .
Segunda: Sou o Lélio Cesar, irmão do Délio Cezar. Se pudesse gostaria de ter seu e.meio para lhe mandar alguma coisa particular. Mas vou adiantar algo:
meu irmão Délio, que penso que seja seu amigo, pois fala muito em você, não está bem de saúde. Depois da homenagem que recebeu como Cidadão Honorário de Londrina em 13/12/2013, sua saúde deteriorou gradativamente. A gente não está tornando isto público nem fazendo pirotecnia a respeito. Estou escrevendo um livro sobre a vida dele e suas peripécias pelo mundo, como jornalista, advogado,político, promotor de eventos, marketeiro político, o escambau. Faltam aí uns 20% para terminar e estou trabalhando dia e noite na coisa. Terá muitos depoimentos de seus amigos jornalistas que cconviveram com ele nesta vida toda de 75.8 anos de idade. Gostaria de utilizar no livro a crônica do José Antônio, por ele ter abordado o jornal Panorama. E gostaria de saber de você, se você produziu alguma matéria com o Délio,. Tenho cá comigo que sim, mas não tenho certeza. Se produziu, gostaria de ter acesso e se possível publicar no Livvro. Estou tentando pegar o máximo de informações possiveis e fatos a respeito do trabalho do mano. Você pode responder pelo meu emeio? leliocesar@gmail.com
Se isto for possivel, ficarei imensamente grato.
E mais uma vez, parabéns.
Um abraço
Lélio Cesar

 

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