terça-feira, 28 de abril de 2009

O ARROMBADOR


Era o ano da primeira grande safra de Londrina. O dinheiro circulava. Fortunas nasciam. E a cobiça também. Naquele tempo Londrina era uma jovem rica. E excitava as mentes criminosas mais ousadas.

Pensão

Poucas informações restaram sobre a passagem do topógrafo John Fairbanks por Londrina no começo da década de 1940. O que se sabe é que tinha um rosto bonachão e vermelho, pois gostava de tomar seu “drink” todo o final de tarde, e rir de chorar das piadas sujas que os brasileiros lhe contavam no bar. Fairbanks chegara a Londrina sem contar a sua história. Desceu do trem e procurou um quarto para instalar sua prancheta de desenho, seus instrumentos de agrimensura e seu rádio Mullard. Escolheu a pensão da dona Lúcia Olivério que ficava na Avenida Rio de Janeiro, área central. Por causa de suas tralhas ele insistiu em ocupar um quartinho que ficava nos fundos do terreno e que, a princípio, funcionava como despensa.
Dona Lúcia foi justa e acertou um preço mais em conta por causa da precariedade do aposento. Fairbanks agradeceu beijando a mão da dona da pensão.
Dona Lúcia era uma viúva, sem filhos, de seus quarenta anos, enxuta e ainda bonita. Fiscalizava a vida de seus hóspedes para que não abrigasse nenhum mau elemento e, principalmente, não levassem mulheres para dentro dos quartos. Sua pensão oferecia lavadeira e servia almoços. E assim que pôs os olhos no topógrafo simpatizou-se com aquele inglês com jeitos de gentleman.

Dardanelos

Patrício dos engenheiros da Companhia de Terras, logo Fairbanks começou a pegar serviços de medição de terras nas redondezas. Preferia os serviços pequenos. Era moderado e ganhava o suficiente para bancar sua bebida, seu tabaco e as despesas básicas. Ao contrário da maioria, não buscava amealhar fortuna e conquistar prestígio pessoal. Dava a entender que era anglicano e vez por outra citava de memória certos Provérbios da Bíblia. Estando bêbado, numa conversa de bar Fairbanks teria deixado escapar que fora Capelão do exército britânico na Campanha de Dardanelos durante a Primeira Guerra Mundial. Porém, depois daquela terrível carnificina perdeu a fé e largou a batina.
Mas o fato é que o inglês era topógrafo caprichoso e com amplos conhecimentos de cálculo. Dizia que quanto mais bebia, mais ficava lúcido, e atravessava dias desenhando os mapas com as demarcações das terras que media. Os mapas eram desenhados com precisão e reproduzidos em cópias heliográficas que ele mesmo preparava. O único detalhe que chamou a atenção de dona Lúcia é que ele gostava de ouvir música no rádio em volume alto.

Safra

Mesmo sendo um desprendido, Fairbanks começou a prosperar. Tinha escolhido mudar-se para Londrina no momento certo. A cidade vivia a euforia de sua primeiríssima safra recorde de café. O húmus da floresta recém abatida ajudava a manter a riqueza da terra vermelha. Era a natureza sendo generosa apesar da ação predadora dos seres humanos. Pelas ruas as pessoas pareciam estar sonhando acordadas. Sentiam-se como se estivessem num paraíso onde todos os desejos pudessem ser realizados. Afinal, podiam ter tudo o que o dinheiro conseguia comprar. Era um fausto, um espetáculo de riqueza que chamava a atenção do topógrafo inglês quando ele via, da janela de seu quarto, sitiantes transportando uma quantidade enorme de sacos de dinheiro para serem depositados no Banco Noroeste, que era vizinho da pensão de dona Lúcia.

Metódico

Dona Lúcia se interessara cada vez mais por aquele homem. Apesar de vez ou outra ele voltar de noite para a pensão completamente bêbado, ele não descuidava de seus compromissos e de sua rotina. Sempre pagava com pontualidade o aluguel e acordava muito cedo para trabalhar. Inclusive, todos os dias dona Lúcia podia vê-lo sair carregando um fardo nas costas e ir até o bosque. Na volta ele trazia o saco vazio. É que, dizia o topógrafo, ele era amante da botânica e trazia mudas de plantas exóticas que encontrava nas medições de terra e as transplantava para o bosque, a fim de enriquecer a flora daquela área de preservação. Após o café, enfurnava-se no quarto, ligava o rádio, e começava a desenhar seus mapas, pedindo expressamente para não ser interrompido.

Flerte

Não demorou muito para que dona Lúcia começasse a nutrir sentimentos por Fairbanks que percebeu tudo, e iniciou um flerte discreto que agradou muitíssimo à dona da pensão. Quando voltava da rua Fairbanks era sempre saudado com um sorriso da bela mulher. Mesmo assim ele mantinha distância, evitando quiçá uma aproximação precipitada. Agia como alguém que precisasse de tempo para se acostumar ao fato de que uma mulher o desejava. Pelos modos viris, dona Lúcia tinha certeza de que ele não era nem um santo, e que sabia muito bem do que uma mulher viúva precisava.
Certo dia, dona Lúcia foi mais ousada. Saiu do banho de toalha justamente quando Fairbanks estava passando. E mais. Deixou a porta de seu quarto entreaberta. Como o topógrafo não entrasse, bateu a porta com um estrondo.
Passados exatamente dois meses veio a surpresa. John Fairbanks entrou subitamente pela cozinha da pensão e convidou dona Lúcia para a festa em comemoração à safra, que aconteceria naquela noite no pátio da igreja matriz de Londrina, logo após a missa. Haveria barracas, comidas, atrações. Dona Lúcia achou romântico e instantaneamente imaginou-se caminhando de mãos dadas pela praça da matriz dizendo “I love you” para seu príncipe encantado. Fairbanks disse que antes teria de levar um mapa de terras para um cliente de Rolândia, e marcou de encontrá-la pontualmente às nove da noite na porta da matriz. Despediu-se com um beijo no rosto dona Lúcia e foi para o seu quarto. Ligou o rádio no último.

Burglary

A pensão estava vazia. Ninguém perderia uma festa daquelas. O único que permanecia ali era John Fairbanks. Mas quem pensava que o encontraria dentro do quarto desenhando sobre a prancheta se surpreenderia. O que se via ali eram marreta, picareta, pá, serras, limas, baldes, sacos de estopa, tocos de vela. Mais para perto da parede podia se ver um buraco cuidadosamente aberto. Naquele momento, através de um túnel pacientemente cavado durante sessenta dias, se arrastava o inglês em direção ao Banco Noroeste, que ficava a poucos metros dali. Eram quase oito e meia da noite quando Fairbanks conseguiu arrebentar o piso do compartimento onde estava o cofre do banco. Assim que pôs-se de pé acendeu uma minúscula vela que iluminou as formas austeras do grande cofre. Abriu uma valise de onde sacou uma série de instrumentos de arrombamento, depois, com o ouvido encostado no cofre começou a decifrar o segredo que abriria a porta para a fortuna.
Exatamente quando o relógio marcava nove horas começou a queima dos fogos de artifício no pátio da matriz. Os estrondos pirotécnicos pareciam comemorar o sucesso de Fairbanks, que acabara de abrir o cofre e estava contemplando os incontáveis milhões da grande safra londrinense ali depositados. Iniciou, então, uma fria e mecânica luta contra o tempo. O inglês queria levar a maior quantidade de dinheiro que pudesse colocar em sacos e atravessar do outro lado do túnel, o mais rápido possível. Seu objetivo era chegar antes das três da manhã até a outra margem do Rio Tibagi, onde um comparsa o estaria esperando com um automóvel. John Fairbanks (certamente um nome falso) não era nenhum principiante.

Vazio

Dona Lúcia estava literalmente arrasada quando perguntou a hora ao pipoqueiro e ele lhe disse “dez e meia”. Sentia que tinha acontecido alguma coisa para o seu príncipe inglês não ter sido pontual. Assim, com seu melhor vestido, ela desceu melancolicamente a Avenida Rio de Janeiro em direção à pensão. Nem entrou em casa. Foi direto aos fundos até ao quarto do topógrafo. Surpreendeu-se que a porta estivesse entreaberta. Encontrou o aposento vazio. Apenas uma vela estava acesa sobre uma prancheta lançando sombras fantasmagóricas. Perto da vela havia um gordo maço de dinheiro e um bilhete onde estava escrito: “Teu amor me trouxe a grande sorte.”
Após o assalto àquela hora todos os sitiantes Londrinenses estavam irremediavelmente quebrados. A festa havia sido em vão. O sonho não durara uma noite. Dona Lúcia foi até o canto do quarto e viu um buraco profundo e escuro. Apertou o maço de dinheiro contra o peito e começou a rir.

(Publiquei este conto na
Folha Norte há um ano atrás. A gravura que ilustra o conto é de instrumentos utilizados na Arte de Arrombamento)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O DIA EM QUE A AVENIDA PAROU

Nos anos 50, Londrina assistiu a uma das demonstrações mais corajosas de amor entre dois jovens completamente diferentes. Quem estava presente na Praça Marechal Floriano naquele domingo de maio jamais poderia imaginar que uma caminhada de poucos passos conseguiria transformar a sociedade londrinense.

Chá das cinco

Dona Hercília estava na porta e beijava cada uma das convidadas que chegava para o chá em sua mansão no Shangri-lá. Nascida em berço de ouro na capital paulista, ela era casada com o Dr. Silveira, um dos grandes advogados de Londrina nos anos 50. Naquela reunião, que contava com a presença de senhoras e moças da sociedade londrinense, dona Hercília se excedia em bom gosto e refinamento, servindo vários tipos de chá inglês, além de “cookies” e “petits fours” para a degustação. Na espaçosa sala de dois ambientes, encontravam-se estrategicamente separadas as senhoras casadas das moças solteiras. E, com voz baixa e anasalada, dona Hercília aconselhava:
– As forças vivas da sociedade, os políticos, a igreja, a polícia de Costumes e Saúde Pública, todos precisam se unir para combater com rigor a doença da prostituição que põe em risco a família londrinense!
E dona Hercília fez uma pausa dramática que dava para ouvir o vai e vem da máquina do jardineiro à distância aparando o gramado da mansão. E a mulher do advogado prosseguiu com fervor moralista:
– Comprem o livro “A Moça e seus Problemas”. É leitura obrigatória nessa idade. Temos de defender nossas meninas nesta cidade depravada!
Enquanto dona Hercília observava a reação de sua platéia de final de tarde, Marilena entrou na sala e foi passando por entre as damas e as moçoilas sem lhes dar pelota. Dona Hercília não gostou nada do comportamento da filha, e disfarçou com falsa polidez:
– Marilena, querida, cumprimente as visitas!
A menina, de dezessete anos, foi de uma franqueza desconcertante:
– Mãe, você sabe que eu detesto os seus chazinhos!
E foi saindo pela porta lateral que dava para o jardim, enquanto dona Hercília a chamava:
– Volte aqui, menina!
Envergonhada pela desobediência da filha, dona Hercília emendou a seguinte desculpa para as convidadas, piscando um olho:
– Ela está naqueles dias...

Mitra

De noite, enquanto o Dr. Silveira estudava um processo-crime à luz do abajur, dona Hercília, afobada, interrompeu o marido para discutir sobre o comportamento reprovável da filha. Reclamou que Marilena estava rebelde e alheia a tudo, tanto que preferiu ficar a tarde toda proseando com o jardineiro Manassés e seu filho, enquanto senhoras e filhas das melhores famílias conversavam sobre assuntos mais elevados. O Dr. Silveira, com aquela calma de advogado traquejado, botava panos quentes:
– Paciência, Hercília. Marilena tem personalidade. Na idade dela eu não dava ouvidos aos conselhos do meu pai, e olhe que o velho era um sábio!
– Viu só, Silveira? Essa menina teve a quem puxar!
O fato é que dona Hercília, uma autêntica paulista de quatrocentos anos, queria o melhor para a filha e faria de tudo para que Marilena se tornasse uma esposa exemplar. Não teve dúvidas. No dia seguinte procurou pessoalmente Dom Geraldo Fernandes. O bispo aconselhou que dona Hercília inscrevesse Marilena no curso para noivas que a igreja e eminentes médicos londrinenses estavam promovendo no Colégio Mãe de Deus. E Dom Geraldo, altíssimo, de batina negra, com gestos eclesiásticos, doutrinava com voz arrastada, pastoreando uma ovelha de seu vasto rebanho:
– Nós pensamos que a senhora fará muito bem em matricular sua filha nesse curso, madame, pois toda mulher deve cooperar com o poder criador de Deus-Pai, aumentando nesta terra o número de filhos e herdeiros no céu!
Durante a fala altamente edificante de dom Geraldo, dona Hercília cometeu a indelicadeza de cochilar, mas foi acordada quando o homem de Deus pronunciou, num grito, a palavra “céu”. Dona Hercília se recompôs. Teve de curvar-se muito para dar um beijo solene no anel do bispo. Chegando à calçada, conferiu as horas nos relógios das torres da Matriz, e foi direto ao Colégio Mãe de Deus cortando caminho pelo bosque.

Chilique

Marilena revoltou-se com a mãe que a matriculara no curso para noivas sem consultá-la, sabendo inclusive que ela sequer tinha namorado, quanto mais um noivo. Dona Hercília tentava acalmá-la dizendo que já estava selecionando moços de boa família para virem conhecê-la em casa, e que, com toda certeza, se encantariam com sua beleza, prendas, finesse e a educação para ser uma perfeita mãe de família. Ao ouvir isso, Marilena teve um acesso de raiva. E, num ímpeto, arremessou um porta-jóias contra a penteadeira estilhaçando o espelho. Mas, nesse momento, já acabara de chegar em casa o Dr. Silveira, a tempo de escutar a discussão das duas. Ele adentrou ao quarto, olhou para a esposa aos prantos, e ordenou à Marilena, que a essa altura se encontrava agachada num canto:
– Amanhã você vai ao curso de noiva.
Marilena fez que sim com a cabeça. Saiu batendo os calcanhares e foi ouvir rádio na sala, fula da vida.

Curso de noiva

Foi uma alegria para dona Hercília ver Marilena adentrar as portas do Colégio Mãe de Deus junto com outras moças casadoiras da sociedade. E, realmente, era uma cena comovente para os pais contemplar aquelas futuras mães acompanhadas de médicos com suas tradicionais roupas brancas. É bem verdade que Marilena ia por último, a contragosto, mais ia. Quando retornava à sua casa, só conversava com o pai, e nada dizia à mãe. Com o passar dos dias, como que por magia, um sorriso floresceu em seus lábios, os olhos ganharam uma cintilância especial. Marilena mal conseguia disfarçar sua felicidade. Para o contentamento de dona Hercília, sua menina agora parecia que estava entendendo o porquê do curso para noivas, e, pelo que tudo indicava, estaria aceitando a idéia de conhecer alguém e casar-se.

Baque

Mas foi numa tarde que dona Hercília descobriu a razão secreta da alegria de Marilena. Foi buscá-la no final da aula do curso sem avisar a filha e não a encontrou nas nas salas do Mãe de Deus. Todas as colegas tinham absoluta certeza de que Marilena não tinha ido embora. Mas foi Ledinha Capolongo quem denunciou o paradeiro de Marilena. Com ironia, quase com desprezo, lascou:
– Por que a senhora não procura Marilena nos jardins da Capelinha?
Terminou de dizer e Ledinha e todas as moças ao redor caíram na gargalhada. Dona Hercília não entendeu nada, e foi se encaminhando para os fundos do colégio, para a capela de Schoenstatt. Quando chegou lá dona Hercília quase desmaiou. Sentiu vertigem e, sem poder se conter, deu uma golfada de vômito. Lá estava Marilena abraçada com o filho do jardineiro Manassés. Dona Hercília cambaleou até os dois jovens sentados num dos bancos de fora da capela. Aproximou-se por trás e, sem qualquer aviso, desferiu uma violenta bofetada no rosto de Marilena, e gritou para o rapaz:
– Tire as mãos da minha filha, seu monstro!

Nervos

No dia seguinte o escândalo correu Londrina. O romance entre a filha do Dr. Silveira com o filho de um jardineiro negro era o assunto nas rodas sociais. Pais de famílias bem posicionadas achavam que o Dr. Silveira deveria processar o rapaz por sedução. Já as senhoras, mais práticas, organizaram uma romaria até o Shangri-lá a fim de dar apoio moral à dona Hercília que estava brigada com a filha, e tomando calmantes. Na sala, conversavam em voz baixa. Todas demonstravam indignação e estavam preocupadas com o que as pessoas de bem da cidade iriam pensar sobre o ocorrido. Porém, o que muitas senhoras queriam saber de dona Hercília, por curiosidade real ou por simples maldade humana, é se Marilena fizera o curso de noiva com vistas a casar-se com Josué. Dona Hercília, explodiu. Negou aos berros que sua filha jamais amou Josué, que isso seria uma união maldita, e que os dois não ficariam juntos nem por cima de seu cadáver.
As senhoras saíram de lá com um estoque de fofocas para gastar em seus cabeleireiros.

O Reverendo

O Dr. Silveira estava duplamente preocupado. Por causa dos nervos da esposa, e por causa dos sentimentos da filha. De fato, ela havia conversado bastante com Marilena e soube que a filha nutria sentimentos sinceros por Josué. Porém, o experiente pai sabia que aquele tipo de relacionamento não seria bem aceito pela comunidade, já que o racismo no Brasil é um fato concreto e motivo de muita hipocrisia. Uma terceira preocupação vinha se ajuntar às demais preocupações daquele pai. Dr. Silveira sabia apenas que Josué era filho de seo Manassés, jardineiro e mais nada. A angústia tomava conta do advogado, sentado sozinho em meio à enorme estante de livros de seu escritório no Edifício Autolon, naquele final de expediente de sexta-feira. Foi quando sua secretária anunciou que o reverendo Jonas Dias Martins estava ali querendo falar um minuto com o Dr. Silveira.
O Reverendo Jonas, pastor da Igreja Presbiteriana Independente, homem que também trazia na pele a herança africana, era um pastor altamente respeitado em Londrina. Dr. Silveira o recebeu com toda a reverência que um líder espiritual merecia. E o Reverendo Jonas, com humildade e compreensão, foi direto ao coração do problema:
– Dr. Silveira, tomei a liberdade de vir aqui para interceder em favor de Josué, o rapaz que está apaixonado por sua filha.
Dr. Silveira ficou desconcertado, mas por instinto de advogado resolveu calar-se e ouvir até o fim o que o pastor tinha a dizer.
– O Josué é de uma família humilde que freqüenta a nossa igreja, prosseguiu o Reverendo. – É um rapaz que ajuda o pai no serviço de jardinagem, mas também é muito estudioso, inclusive os estudos dele são pagos pelo médico Dr. Clímaco, que o senhor deve conhecer. Por isso, quero dizer que eu lhe dou minha palavra de que o senhor, a sua senhora e principalmente sua filha podem confiar em Josué da Silva, pois ele é um moço de caráter irrepreensível e, com certeza, a fará muito feliz.
Dr. Silveira não sabia o que falar. Agradeceu a preocupação do Reverendo Jonas e disse que iria meditar sobre o assunto com vistas à melhor solução do problema. O Reverendo o abençoou, despediu-se e partiu. Dr. Silveira ficou ali sentado ponderando durante horas e horas. Até que se levantou da cadeira e foi para casa.

Footing

O domingo londrinense amanheceu ensolarado com um céu de um cristal azul-turquesa. Após a missa na Matriz do Sagrado Coração de Jesus, toda a cidade circulava pela Avenida Paraná. Era o costume daqueles tempos. As moças e os rapazes faziam o chamado footing, um passeio pela Praça das Bandeiras, (atual Marechal Floriano) onde os jovens podiam se ver e as paqueras, namoros e noivados aconteciam, principalmente entre as moças e os rapazes das melhores famílias da sociedade londrinense. Naquela manhã de maio era possível ver casais de namorados manifestando seu afeto com recato e respeito. Tudo corria normalmente como sempre. Porém, sem que ninguém pudesse explicar, um casal diferente veio vindo pela calçada a partir da esquina da Avenida Paraná com São Paulo. Houve silêncio de susto. Eram nada mais nada menos do que Marilena e Josué, uma branca e um negro, de mãos dadas. Vinham felizes e orgulhosos de seu amor. Olhavam nos olhos de todos que os encaravam assombrados, mas os cumprimentavam com desembaraço e educação. E, à medida que caminhavam para a esquina da Avenida Rio de Janeiro, já ninguém mais achava estranho. Muitos faziam gestos de aprovação, alguns aplaudiam ao longe enquanto Marilena e Josué seguiam pela Rua Maranhão em direção ao Cine Ouro Verde.

Desfecho

Essa ousadia de Marilena teve conseqüências. Dona Hercília revoltou-se ao saber do acontecido, inda mais pela boca de suas muitas amigas. Não quis entender nada e pediu desquite do Dr. Silveira por ter dado apoio àquele romance “imoral” aos seus olhos, mas não sem antes bater o pé e mandar Marilena terminar o estudos em São Paulo. Essa separação decretou o doloroso fim daquele namoro.
Quanto a Josué, anos depois, ainda com auxílio financeiro do Dr. Clímaco, também foi estudar em São Paulo. Passou no vestibular para Direito no Largo de São Francisco, onde se formou com Láurea Acadêmica e foi orador da turma. Três anos antes da formatura, Josué e Marilena acabaram se reencontrando na faculdade de Direito. O amor os uniu novamente.
Depois que Marilena se formou, eles se casaram. O casal convidou então o Dr. Silveira, e os três abriram o escritório Silva & Silveira, e tornaram-se importantes e prósperos advogados em São Paulo.

(Publiquei este conto na Folha Norte no início de 2008)

Galpão apresenta "Pequenos Milagres"

Quem mora em Belo Horizonte ou estiver próximo a BH poderá conferir até o dia 3 de maio a peça "Pequenos Milagres" com o Grupo Galpão. As apresentações rolam de quinta a sabádo às 21hrs e aos domingos às 19hrs no Galpão Cine Horto que fica na Rua Pitangui n 3613. A peça é fruto do projeto que reuniu aproximadamente 600 histórias enviadas ao grupo e delas foram selecionadas quatro para integrar a dramaturgia a qual tive a honra de assinar em parceria com Paulo de Moraes que também dirigiu o espetáculo. Trago muitas belas recordações do convívios com os integrantes do Galpão, artistas do maior talento e dignidade e que tantas contribuições têm dado à cultura de nosso país. A dramaturgia da peça "Pequenos Milagres" também já está publicada em livro pela editora Autentica/PUC Minas, fazendo parte da coleção que inclui todos textos teatrais representados pelo Galpão em seus 25 anos de estrada. Além da dramaturgia há o livro "Pequenos Milagres e outras histórias", também publicado pela Autentica/PUC Minas, que traz as 46 melhores histórias enviadas no projeto que resultou na peça.
A cena da foto mostra os atores Antonio Edson e Beto Franco na supreendente história "Cabeça de Cachorro" adaptada do relato enviado por João Celso.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Instantâneo


LESANDO A VIDA

Eu não deveria estar aqui escrevendo
tenho coisas mais urgentes a fazer
que gritam na consciência
e me apuram
e clamam por resolução.
Sei bem
não deveria ser tão inconstante
afinal, conheço a segunda máxima
da moral provisória de Descartes
mas esta necessidade
de perpetuar esta hora em paisagem espiritual
uma trama narcótica
entorpece meu querer fazer.
De duas, uma:
ou escrevo este poema pra valer
ou decido esquecer
e a contragosto
esfolado vivo
persigo esse sustento
trocando dever por outro dever
a vida deixada pra amanhã.


(Publiquei este poema na revista Peosia Sempre, ano 13, número 22 – ano 2006.)


terça-feira, 21 de abril de 2009

SOBRENATURALIA 1


Quando a noite cai, a cidade vermelha se transforma num palco de acontecimentos sobrenaturais. Caso exemplar é o do distrito da Warta, situado ao norte da cidade, e que traz marcas da imigração polonesa. Oferto-lhes, abaixo, um relato singelo do mais conhecido caso que povoa o imaginário daquela bela localidade.

A NOIVINHA DA WARTA

Conta-se que por volta da década de 30 do século passado, uma bela jovem foi a um baile de domingo. Chegando mais cedo à festividade, a moça começou a dançar animadamente com outros rapazes. Eis senão quando chega ao baile o rapaz que estava apaixonado por ela. Vendo sua pequena nos braços de outros, cheio de ciúmes, vai embora do baile batendo os saltos. Sabendo que foi vista dançando com outros, e que ele fora embora, a moça se desespera.
A angústia aumenta quando alguém, alguma invejosa mal intencionada, lhe diz que o rapaz tinha ido embora com outra garota. Imaginado-se trocada, na segunda-feira a moça resolveu por fim à vida bebendo soda cáustica. De acordo com o costume dos poloneses da época, a jovem foi enterrada trajando vestido de noiva, tendo nas mãos um terço e um buquê de flores de laranjeira.
Não passou muito tempo e o fantasma de uma noiva começou a ser visto. Primeiro num carreador de café no fim da tarde. Depois, de manhã, ao lado de uma tulha abandonada. Depois, numa noite sem lua, a novinha passou caminhando lentamente por um terreirão de café. Quem a viu disse que tinha o rosto baixo e os olhos cheios de lágrimas. Outros a viram com os olhos arregalados, as faces com palidez cadavérica e a língua roxa para fora da boca, efeito da soda cáustica.
Os antigos justificavam a aparição afirmando que a alma dos suicidas ficam eternamente presas a este mundo. Tanto é assim que a Novinha da Warta costuma aparecer até os dias de hoje.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O aniversário do Dr. Getúlio

Ontem, 19 de abril, foi aniversário de Getúlio Vargas. Apagaria um impossível bolo com 127 velinhas. Hoje passei a pé pela Praça que lhe homenageia e vi seu busto de bronze esverdeado. Não me saía da mente a voz roufenha de Ariano Suassuna me dizendo, quando de sua visita a Londrina: "Getúlio foi um homem honrado." Fica aqui a lembrança que agradaria meu avô Osório Teixeira Arruda, getulista roxo.

sábado, 18 de abril de 2009

A canção e a parteira japonesa


Hoje acordei com uma canção do meu amigo e irmão Bernardo Pellegrini na cabeça. “Te levo dentro de mim até um pedaço/um trecho/ depois eu me afasto/te vejo/Eu fico fora de mim...” Essa canção me trouxe o mesmo frescor e leveza dessa manhã azul de sábado e fiquei feliz. Então pensei muito em Bernardo, na sua paixão pela vida, nas tantas coisas lindas que ele compõe e escreve, e isso me fez lembrar um texto que ele escreveu e que me emocionou muito no ano passado. Na verdade o texto foi escrito em 1999 e é um relato sobre uma reportagem que Bernardo fez com a japonesa Maria Tan, uma das primeiras parteiras de Londrina. Moleque que pisou a terra vermelha, que viu muita coisa no “Hotel dos Viajantes”, Bernardo flagrou com sensibilidade uma personagem que fez a nossa diferença. Sim, muitos e muitos londrinenses vieram a luz por mãos do sol nascente. Eis aí, meus amigos, o texto em questão:


MARIA JAPONESA

O sobrado respirava silenciosamente. Vinte anos atrás, a Belo Horizonte era uma rua tranqüila cheia de casas de madeira e jardins japoneses. Toquei a campainha incerto do que esperar daquele começo de tarde de trabalho preguiçoso. Sabia apenas o seu nome –
Maria Tan –, seu apelido – Maria Japonesa – e seu feito: 40 anos de trabalho como parteira, em que trouxera à vida pelo menos cinco mil londrinenses. Naquele tempo, nascer em maternidade era um luxo. E mais raro ainda eram as parteiras com algum tipo de formação médica.
Maria veio abrir a porta, sóbria com a decoração da casa espaçosa, que recendia a tinta fresca e madeira nova. Aposentada, viúva, os filhos formados (Joana parteira como ela; Toshihiko, dentista; Kooki, médico), só agora capitulava aos confortos da própria casa. Contando sua história, a luz de Maria jorrava sobre os pequenos gestos, pequenas interjeições. Desenhava com os dedos no tecido do vestido discreto que lhe cobria os joelhos, sentada como as mulheres de seu tempo. As pernas repousando na garupa de uma montaria imaginária.
Quando chegou a Londrina, nos anos 30, hospedou-se com o marido no único hotel que existia, a estalagem da Companhia de Terras. A cidade se resumia a alguns galpões de madeira, muita rua de poeira e lama, muito casal se mudando e, notou Maria, muita criança nascendo. A terra vermelha contraía, latejava. Trazia na bagagem a disposição de ajudar o marido e um diploma de enfermeira da universidade de Kobe. Não podia exercer a profissão, mas em poucos anos, porém, o seu nome já virara uma lenda, e seu ofício um amparo. Naqueles anos distantes da década de 40, Maria Japonesa, mal parava em casa.
Assombravam-lhe a memória os sobressaltos da profissão. Alta madrugada, um cavaleiro de capa negra, com dois animais encilhados debaixo da tempestade dizendo: “Vamos dona Maria, a criança tá pra nascer”. E ela ia. Eram dias de marcha até uma fazenda distante, onde uma mãe gemia e muitas velhas rezavam. Passava as vezes semanas fora, ao lado de gente que nunca havia visto antes e voltava sempre com uma galinha, um porquinho, um regalo.
As coisas estavam bem melhores nos anos 50. As ruas tinham asfalto, Maria tinha um jipe Willys e um emprego na Santa Casa, onde os médicos lhe reverenciavam. Depois, o nascimento virou indústria. Vieram a anestesiam, as cesáreas em série, a previdência, as maternidades. Quase ninguém mais nascia em casas quando Maria Tan foi cuidar das plantas no jardim do sobrado silencioso.
A reportagem que escrevi sobre nosso encontro saiu em matéria de página inteira na Folha de Londrina alguns dias depois e causou muito emoção em casa quando contei que, embora estivesse às portas de completar dez anos de reportagem, nunca antes me emocionara tanto entrevistando alguém. “Pudera!” – meu pai disse. “Foi a primeira pessoa que pôs as mãos em você.”
Enquanto eu nascia, Maria mandou que meu pai fosse à padaria buscar uma garrafa de cerveja. “Quando voltei você já tinha nascido.”
Maria mandou abrir a garrafa, deixou jorrar a espuma. Depois secou o copo, subiu no jipe e saiu para outra, outro parto. Eu nem sabia, mas foi o meu primeiro brinde e me emociona até hoje a forma que então a vida escolhia para nos dar a sua cara.
Era o ano mágico de 1958. Era um tempo em que futuros doutores e futuros ladrões, e futuros rufiões e futuras putas, e magnatas e pilantras e mecânicos e corretores de café, lavradores, pintores e encanadores, artistas, motoristas de táxi, e vagabundos, e os fracassados de todos os tipos e também os heróis e os miseráveis, todos, todos nós, nascíamos em nossas casas, rodeados de gente querida, pelas mãos de uma só pessoa.

Bernardo Pellegrini
7 de agosto de 1999.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

PAULÃO ROCK' N' ROLL


O londrinense Paulo César Troiano é uma verdadeira lenda vida. Um genuíno rock-heroe. Ícone absoluto, ele é mais conhecido pelo nome de Paulão Rock’n’Roll. Paulão é, sem dúvida, um dos maiores conhecedores de rock do país, e figura única no universo radiofônico brasileiro. Entre as suas façanhas está a organização do show “Colher de Chá”, em Cambé, o Woodstock norte-paranaense que contou com uma apresentação dos Mutantes. Seu antológico programa de rádio “Azylo Hotel” ficou 20 anos no ar tocando rock, metal e blues, temperados com sua locução e estilo veloz e envolvente. Desde janeiro ele está de volta com seu “Azylo Hotel” desta vez na internet pela Rádio Sercomtel. Em 2006 encarei o monstro-sagrado do rock e realizei um entrevista informal. Foi uma conversa agradável na qual ele ainda teve a gentileza de me pagar um Irish Coffee. Publico agora em caráter inédito os melhores momentos desse papo memorável. Som na caixa!

PAULÃO ROCK’N’ROLL:
Rádio é uma magia. No rádio você só ouve uma voz e essa voz te faz criar um personagem. Eu tive muito problema com esse negócio de voz. Na cidade de Cornélio Procópio, tinha uma menina de 16 anos. Ela ia no orelhão e ligava pra mim, à meia noite. Ela chorava, que ela queria me ver, queria namorar, falei: “Ó, gata, não dá, meu! Eu tenho cinqüenta anos, sabe? Cê tá ouvindo a voz dum cara que parece um jovem, mas num sou.” Mas ela não acreditava. Pra ela o Paulão Rock’n’Roll tinha vinte e quatro anos. Ela tinha dezesseis. Por que não namorar? Isso chegou num ponto que o pai dela chegou pra mim e ligou: “Meu, tô aqui com a minha filha, eu venho toda sexta-feira aqui no telefone, pra cuidar dela, porque isso aqui é uma pracinha perigosa, pra ela ligar pra você, e você desfaz dela só porque ela é sardenta?” Eu falei: “Meu amigo! Quantos anos cê tem?” “Eu tenho quarenta”. Eu falei: “Meu, eu tenho cinqüenta! Eu sou mais velho que você! Como cê acha que eu posso namorar a sua filha? Cê dá direito de eu namorar?” “Não, mas você tá enganando minha filha, cê tem uns vinte, vinte e quatro anos!” Eu falei: “Meu, cê tá ouvindo a voz dum cara a jato, um cara jet flash, mas ele tem cinqüenta anos”, a carne, o osso (Risos). Então, esse são problemas que eu já sofri com o Azylo Hotel, o meu programa. Muita gente já ligou de motel, já ligou de casa mesmo, dizendo: “cara, você é demais, deve ser um garanhão, moreno, um metro e oitenta.” A rádio faz com que você crie o personagem que você quer. A voz é demais!

Gênese radiofônica

Quando eu comecei em 1982, eu não sabia nem falar. Eu escrevia. Quando eu ia falar não saía nada. Dá um branco, cara. A “latinha” [o microfone] dá um branco pra quem é iniciante que é chocante, sabe? Então eu dava pros caras ler, outros Disc Jockey do momento. Só que os caras diziam: “Não dá, quem fala desse jeito é você.” Aí eu tive de aprender a ser o Paulão Rock’n’Roll. Eu inventei frases como: “Ei vocês? Ficam aí ou vem com a gente?” É diferente daquele “vem comigo” da TV. “Fica-aí ou vem-com-a-gente? Vamo nessa!” — Essa linguagem é do Paulão. É uma gíria localizada, datada, só que quem botou isso em prática foi o Paulão Rock’n’Roll. E eu falava isso na rádio, os caras gamavam, achavam isso demais. “Fica-aí ou vem-com-a-gente?”. Demais. Isso foi em 1984, na Paiquerê FM. Eu era tão forte que eu tinha um estúdio móvel, ia pra Av. Higienópolis, botava um palco na Rua Goiás, botava o estúdio móvel do lado e distribuía prêmios.

Metranca verbal

Daí, cara, na Paiquerê FM eu comecei a pegar velocidade no papo, texto. Então ficou uma velocidade, que eu tenho fita pra te mostrar que nem eu entendo o que tá falando lá, tão veloz que tá o texto, sabe cara? Você pega uma agilidade. É muito bom isso. Eu gosto. Rádio é um clima tão gostoso, é uma magia tão gostosa, mas o Paulão precisa ser ao vivo. Gravado não dá. “E, com vocês, agora, Chubby Checker, com a música, “Twist, and, Shout.” Isso não dá velocidade. Agora: “Rapaziada pega aí ó, acabou de chegar pra mim, Red Hot Chilli Pappaaaa!!!” O “pappaaaa” é meu, cara. É Chilli Pepper. Mas o que interessa chilli pepper, chilli pappa, sabe cara? Eu faço uma gozação com esse nome. Eu faço trocadilho em cima. As músicas do Zappa... Tinha uma professora de inglês de Bela Vista do Paraíso que ela falava assim: “Adoro o programa do Paulão porque ele troca todos os verbos de inglês, ele não fala nada certo!” Aí eu falei, essa frase é do Zappa, mas a tradução livre é minha, e a minha não é tradução do Zappa. Tem uma música do Zappa que chama “Why I don’t hurt when I piss?” — “Porque eu não sofro quando eu mijo?” Eu troquei e fiz “Porque não sofres quando eu ponho tudo?” É a mesma senóide.

Rock - contato de primeiro grau

O meu pai era gerente de cinemas da empresa Caminhoto, a gente começou a ver o Elvis Presley... A Cely Campello, esses caras tinham show dentro de cinema. Quando não cabia no auditório da Rádio Londrina, que era único lugar que tinha shows ao vivo, tinha programas de rádio ao vivo, então a gente ia pra lá. Tinha também o Célio Alves de Lima, que passava pra nós uma informação muito pequena, mas já era alguma coisa. Pra nós duas músicas por mês de Rock’n’Roll já era uma informação monstruosa, sabe? Intoxicante. Hoje são quarenta músicas diárias que eu recebo, sabe cara? Lógico que naquela época, como hoje, pra você ganhar uma gatinha, tem que mostrar uma novidade. Nessa época, nessa idade, a melhor coisa era o Rock, e a gente foi pegando o Rock. Eu fiquei sabendo que naquela época, que o Cauby Peixoto foi um dos primeiros caras que foi buscar Rock lá nos Estados Unidos. Ele foi embora do Brasil, suicidar, fazer alguma coisa, porque descobriram quem ele era... Chegou lá ele viu o Elvis nascendo em 56, e ele trouxe o Rock pra cá. Eu tenho essa gravação em disco, e é o Mr. F quem fala isso. O Mr. F é um cara que, no Brasil, em Internet, que conta a história do Rock, tá? Então você ouve rock lá que nem eu sabia que existia.

Arnaldo Batista & The Beatles

Eu nunca saí do país, cara. Eu nunca estive em Woodstock. Mas eu fui considerado o quarto dia do Woodstock, que foram três... (Risos) Eu e o Arnaldo [Batista] dos Mutantes, a gente até pensou em ir. Eu tive uma amizade singela com o Arnaldo, porque o Arnaldo naquela época era muito louco. Ele falava oi procê como falava oi pra mim. Nós éramos tão amigos dele quanto eu, você e o cara ali da esquina. Mas ele falou que ia de moto e eu arranjei um Camaro de uns americanos pra ir. Mas esses americanos deturpados ficaram, não foram. E o Arnaldo quase caiu na Cordilheira e ele voltou engessado. Mas nossa idéia era ir. Eu cruzei o Arnaldo em 68,69. Eu fui pra São Paulo num show de rock, uma porrada de americanos, uma porrada de banda boa que estavam chegando. E o Arnaldo tinha uma Kombi psicodélica, porque ele tinha essa informação, porque ele ia muito pra San Francisco, ele ia muito pra Londres, ele teve toda aquela informação que os Beatles tiveram. Porque os Beatles foram realmente a primeira banda, oficialmente, a transportar o valor do “retorno a si mesmo”, “retorno pra dentro de você”, procurando a espiritualidade. E isso só se deu na vida do ser humano do planeta terra, nos anos 67. Isso foi oficial. Lógico que o Donavan teve acesso a isso, lógico que uma pá de gente teve, Bob Dylan, esses caras foram tão na hora quanto os Beatles, mas os Beatles eram oficial, né cara? Eu tiro sarro na minha palestra “Papo de Rock 3”, porque os Beatles chegaram nos Estados Unidos em 64, e disseram: “Nós inventamos o Rock” e os americanos aplaudiram, e isso foi inventado como “Beatlemania”. Que rock que eles inventaram se o rock é americano?! (Risos) Ninguém nunca se tocou disso, né cara? O Rock vem do Rhythm & Blues, que vem do Blues, que vem do Gospel, e isso começa na minha cartilha em 1860 e eu venho contando a história do rock até 1970.

Estilo Paulão

Eu sempre procurei arrumar a minha dicção e o meu palavreado, a minha linguagem, porque ela já é torta, porque eu uso muita gíria, misturo muito o inglês com o português, então eu falo: “102.9 a radio city de Londrina!” Pra você sentir que é um cara diferente falando no rádio. Às vezes eu falava assim: “Ei, cara! Estou apagando um poste a um quilômetro de distância de mim! Sabe aquele poste que tá lá na Expressa? Eu apaguei! Ó – bip!” (Risos) “Vocês que ‘tão vindo me buscar de carona! Volte pra casa porque um de vocês aí dentro desse Chevette esqueceu o fogão aceso!” Quantas vezes voltaram e vieram falar pra mim, “Paulão!, a gente ia te pegar, mas voltamos pra ver o fogão e tava aceso mesmo! Vamos dar mais um tiro aqui e vamo te pegar. Fica aí, meu!” Às vezes eu ficava até as três da manhã esperando alguém ir me pegar na porta da rádio. “Ei você aí de Arapa, de Apuca, de Rola! Já fez a massagem na espinha (já gozou, né cara?) passa aqui e me dá uma carona, porque juntos nós vamos derrubar aquele poste que tá na Avenida JK!” Isso é a linguagem do Paulão dando um toque pros ouvintes de Arapongas, Apucarana, Rolândia.

Postes

Uma vez teve um cara. Esse cara chegou em casa e flagrou a mulher dele com um outro cara na cama. Ele era um cara educado e não bateu em ninguém, mas ele pegou a moto dele, e zum! “Vou pegar aquele poste que o Paulão falou.” E ele foi lá e trincou o poste! O poste, eu posso te falar qual que é. É aquele poste na curva da JK em frente da Igrejinha anglicana. Então eu falava desse poste: “Não derrube esse poste porque ele é meu. Eu que vou derrubar esse poste. Tô indo aí!” Pá!!!, de cabeça, vou derrubar esse poste! É uma loucura, não vai acontecer isso. Mas o cara trincou o poste! Pegou de moto, cara! Ficou um ano na UTI de cabeça rachada. Rachou o capacete, rachou tudo, acabou com a moto, e fudeu o poste. (Risos) Então acontecia muito disso. Às vezes tinha cara que falava assim: “Paulão, ‘güenta aí que eu tô indo te buscar com um carrão fora de série, é um caminhão, um 1113 novinho, sabe!” Novinho modo de falar, porque o pai do cara era dono de um ferro-velho. Esse maluco fez a curva da Av. Arthur Thomas e entrou na Rodovia, na hora que ele fez a curva, ele tinha esquecido de fechar a porta dele, a porta abriu e ele caiu fora do caminhão que foi bater lá num haras. Os vigias viram no meio da noite um caminhão fantasma, sem ninguém dirigindo. E o cara ficou caído dentro de uma canaleta de esgoto.

Porta-malas

Essa história é a mesma história do poste, é a mesma história de eu pedir carona pelo rádio. Às vezes eu pensava, “pô, eu pareço uma loira no cio”, porque eu pedia carona meu, e nem falava o nome da rua onde era rádio, ficava quatro, cinco carros esperando eu, sabe cara? Teve um carro uma vez, pintou uma menina: “Paulão, vim te buscar. Só que eu vou lá no banheiro.” Eu falei: “Então vai lá você no banheiro que eu te espero aqui no carro.” Isso se pode perguntar pro Callado ele tava lá também me esperando, tinha uma pá de gente de lá. Aí eu ouvi uma batida no carro “toc-toc”. Falei: “É você que tá batendo?”, a gente tava encostado no chevetinho – “toc-toc-toc”. “Eu não, meu!” “Então vamo vê o que é que é – Alô! Quem é que tá batendo, se apresente!” “Tô aqui dentro do porta-mala!” Eu tava com a chave que a menina me deu, abri, e tinha um japonesinho de óculos de fundo de garrafa. “Ô meu, ela foi mijar, deixa eu ir mijar também, eu tô com vontade...” Eu falei: “Eu não! Você vai mijar aí dentro meu!” e fechei o porta-mala. (Risos) Larguei a chave dentro do carro e me mandei com o Callado.

Carona

Tinha muito essas subliminares, e eu me divertia com isso, que a gente falava umas loucuras que dava certo, né cara? Era intuição eu acho. Sei lá o quê que era isso, entendeu? Um dia eu pedi carona, pedi carona, e ninguém veio, cara. Eu peguei e fui a pé. Eu fui embora da rádio umas quatro, cinco vezes a pé. Eu pegava a rodovia, entrava na Arthur Thomas inteirinha, vai lá fazer a Arthur Thomas a pé procê ver. É muito foda, cara! Uma reta e ladeiras, nunca vê o fim, cara. Um dia eu tô vindo a pé, cansei e parei num determinado lugar e fiquei sentado. Aí eu vi uma peruinha passar a 200 por hora. Parou e o cara disse: “Você que é o Paulão Rock’n’Roll? Vim te buscar!” Era o falecido dono do Bar Beco. Ele disse “Meu, eu trouxe uma garrafa de Ballantines pra você, tá todo mundo no bar querendo fazer uma festa pra você.” Fui lá meu, maior festa pra mim, gêmeas dançando em cima da mesa, sabe, uma coisa de louco. E isso tudo em Londrina, essa cidadezinha que cê acha que de dia é evangélica pra caralho, e de noite é uma Sodoma e Gomorra.

Hotel Erótico

Os papos no meu programa são os mais sensuais possíveis. Por exemplo, tinha gatas, a Cigana, por exemplo, falava que tava desse jeito, ela devia estar brincando, não é possível que ela tava daquele jeito, mas ela estava daquele jeito, sem sutiã, sem calcinha, com camisolinha, ajoelhada na cama com o telefonezinho ali... Quer dizer, ela criava uma cena, que isso é excitante. Aí eu passava alguma coisa disso no ar: “E a Cigana acabou de ligar pra mim, cara! Olha aí, ela disse que ela tá assim desse jeito: (malicioso) do jeito que cê pensou, cara! Vamo aí, com mais um Red Hot Chilli Pepaaa!!!” Eu inventava nomes: “A Senhora Battery, está lá em Arapongas!” Ou então: “E aí Portuguesa, se tá vindo de carro? O Bacalhau vai indo!” E eles se cruzaram, cê acredita? Eles tavam ouvindo o programa! O Bacalhau ligou: “Paulão, cadê a portuguesinha?” falei: “Pô, ela tá aí na estrada, tá vindo de Arapongas!” E os dois chegaram no estúdio com uma champanhe pra comemorar, subiram a escada inteirinha até o décimo andar, que o elevador tava sempre desligado pra não subir nenhum louco lá. Os dois conseguiram se cruzar na estrada porque tavam ouvindo o programa! Oscar, Grammy é o pouco, cara!

Metafísica do rock

Eu acho o seguinte: eu fiz um acordo com Deus, que meu, eu tenho uma vida dura, difícil. (Risos amarelos) Então Ele falou; “Paulão, vai lá embaixo, se diverte, não me aluga, não fica com esse negócio de ‘Pelo amor de Deus; ai, Deus me ajuda’, sabe, ‘Pai do céu’? Eu não peço isso. Nunca cê vai ouvir eu falar assim: “Pelo amor de Deus me tira dessa.” Mas me divirto. “Porque quando você subir, eu vou botar você de encontro com os caras que você fez errado, e os caras que erraram com você, tá. Você que decide, tá? Não vou cuidar de você, vou cuidar daqueles coitadinhos que tão pedindo ajuda lá. Você se vire com os caras que tão te devendo ou que você tá devendo pro cara. Acerta aí”. Então é assim o acordo entre eu e Cara lá.

Frank Zappa

Eu sou um cara que sou cria do Frank Zappa, que usa humor negro e uma inteligência, uma sátira que faz o cérebro rir e não o corpo. Uma piada inteligente, né cara? — “Tem muita coisa que é feia num ser humano. Uma delas pode ser sua mente.”

Informação musical

Pô, se o Zappa ouve Stravinsky, e o Zappa é o cara que eu curto, eu ouvir Stravinsky, né cara? Eu tive uma fase na minha vida, de 68 a 72, que eu ouvi muito música clássica. Eu trabalhava num cartório distrital, cartório de registro de imóveis, e o Fernando Busse tinha uma enciclopédia de música clássica. Lizt é um cara que eu ouvi demais, Stravinsky, Tchaikovsky, Wagner – nossa!, o cara tinha as óperas todas do Wagner, “Navio Fantasma”, tudo aquilo eu ouvi. Ele tinha os discos 78 rotações do Noel Rosa, eu fiquei chocado com essas coisas, viu cara? Quando eu ouvi isso eu parei de perder tempo com Rock’n’Roll e fui me administrar sobre isso aí. E vi que muito roqueiro traz o clássico pro Pop pra mostrar aquelas frases medonhas de lindas do clássico. Eu vi uma cena muito bonita agora com a Orquestra Sinfônica que teve no Ouro Verde, de graça. Tinha uma cantora lírica lá. Eu vi gente que levou os filhos pra ouvir isso. Então tinha uma criancinha de dois anos atrás de mim, brincando, falando o nhenhenhen dela, mas ela tava ouvindo aquela música. Tinha pessoas do meu lado, que ficavam reclamando: “Essa criança, né Paulão...” Eu falei: “Deixa ela, meu!” Ela tem dois anos, ela tá vivendo a vida dela, mas ela tá recebendo a informação. Quando ela tiver dez anos, ela vai encontrar essa informação de novo, ela vai melhorar a informação dela. Quando ela tiver vinte anos, ela sabe o que procurar, porque ela teve a informação com dois anos de idade. Isso pra mim é muito importante, sabe? Minha vida foi assim, cara. Eu tive informação. A minha mãe era uma pessoa que trazia os álbuns de Rock’n’Roll pra mim de São Paulo. Eu conheci “Ten Years After” através da minha mãe, cara. “Emerson, Lake & Palmer”, que era o “Nice”, antes do “Emerson, Lake & Palmer”, foi minha mãe que trouxe pra mim, cara.

Mó orgulho

Eu ouço quase que diariamente para administrar o volume de sonoridades que eu vou ter no dia, e no dia pode ser o barulho dessa caixa, que tá dentro da sonoridade que eu tô absorvendo hoje, música que eu tô ouvindo dentro de carro, Hip Hop que tá passando do meu lado, a sertaneja que tá passando do meu lado, isso tudo pode me incomodar bastante. (Risos) E pra eu não me incomodar, pra eu tolerar, eu ouço Zappa, Rock’n’Roll bastante, eu ouço muito “Greatfull Dead”, coisas que não estão na parada de sucesso e nunca foram bem resolvidos no Brasil. Por exemplo, eu fiz 30 horas de Frank Zappa pra UEL FM, eles botaram isso no ar durante dois anos, agora cortaram. Trinta horas no Brasil, não tem nenhuma FM que tem disponível trinta horas de Zappa no mundo. A BBC pode fazer um programa pegando CDs e pondo no ar na hora, mas gravado, prontinho, com sátira, com uma observação do Paulão Rock’n’Roll eles não tem. Porque o Paulão Rock’n’Roll é de Londrina, cara. Eu fico contente – isso que é a fama e não o sucesso – a fama é quando você ouve gente na rua falar: “Meu, eu aprendi a ouvir Zappa com você.” Eu tenho vários caras que vem falar isso pra mim.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A ESPADA DA JUSTIÇA


Existem muitas maneiras de escrever a história de uma cidade. Podemos contar uma história focalizando somente os “homens de bem”, os vencedores, os pioneiros. Podemos, também, investigar o que foi soterrado por essa história “oficial” e garimpar as paixões humanas, o que sucede ao povo, aos mais humildes, acontecimentos que são banidos dos anais escritos pelos "melhores" da sociedade. Com efeito, exatos 5.323 processos criminais tramitaram no antigo Fórum de Londrina entre os anos de 1932 a 1970. Hoje esses autos estão devidamente guardados nos arquivos do Centro de Documentação e Pesquisa História da Universidade Estadual de Londrina. Em rápida visita ao CDPH vesti minha beca de advogado desbotada como um velho guarda-chuva, mergulhei na poeira dos processos para me debruçar sobre alguns casos. Eles são tanto objeto de minha curiosidade jurídica quanto registros do corpo e da alma londrinense nas décadas de 40, 50 e 60. Espero que estes resumos - adaptados pela ótica deste escriba - sejam de vivo interesse aos marujos elétricos que singram as ondas deste “imbloglio”. Vamos a eles:


Defloramento


Abril de 1941. Brilhos faiscavam na noite. Diana (nome fictício) foi com duas amigas crianças a um inocente Parque de Diversões. Eram cerca de 21h30min quando ela encontrou-se com Nereu (nome fictício), que era motorista de “jardineira”. Nereu era um paquera de Diana. Estranhamente ríspido naquela noite, Nereu deu uma moeda a uma das amigas e ameaçou a outra. Disse a elas que dessem o fora e fossem se divertir no Parque. Ato contínuo, segurou firme no braço de Diana e a arrastou até um matagal escuro onde, voraz, rasgou-lhe imediatamente o vestido e as vestes íntimas tentando manter relações sexuais à violência. Só não conseguiu a cópula porque Diana resistiu bravamente. Diana desvencilhou-se de Nereu e fugiu. O pai de Diana foi à delegacia. Após exames de corpo delito, constatou-se que Diana havia preservado a virgindade intacta. Quanto a Nereu, pegou dois anos de cadeia.

Mauzer

Reinaldo (nome fictício), aproximadamente 25 anos, era amasiado há três anos com Eulália (nome fictício), 26 anos. Eulália era casada com outro homem, mas tinha largado seu marido e estava pousando numa pensão da Vila Matos, conhecido bairro da prostituição da cidade. Reinaldo queria tirá-la da pensão, mas Eulália não aceitava. Ela até já tentara se afastar de Reinaldo porque a família dele era contra e estava escrevendo uma série de cartas ofensivas contra ela. O casal vivia então melancolicamente.
Numa madrugada de abril de 1950, Reinaldo tomou umas cervejas a mais. Entrou no quarto da pensão para dormir. Eulália já estava deitada. Reinaldo sentou-se na cama e quando foi tirar a sua pistola Mauzer, calibre 4,6 da cinta, arma disparou acertando o seio direito de Eulália. Desesperado, vendo sua amada morta, não teve dúvidas. Decidiu suicidar. Colocou a pistola contra a sua fronte direita e disparou.
Ensangüentados os dois foram levados às pressas para a Santa Casa. Nenhum dos dois morreu. Na realidade, até que se recuperaram depressa. Eulália perdoou Reinaldo. O processo foi arquivado.

Acidente Aéreo

Por volta do meio dia de 13 de dezembro de 1950, um Douglas DC 3, prefixo PP SPT da VASP, vindo de Ourinhos, decola da “aviação velha” de Londrina com destino a Mandaguari. Segundo o co-piloto, após taxear para a cabeceira, na corrida para decolagem, quase no fim da pista, pressentiu que o motor esquerdo falhava. O avião levantava vôo de cinco a dez metros, mas, como o motor direito impulsionava o avião, este pendeu para o lado esquerdo sem funcionamento, vindo a tombar sobre um bar existente do lado esquerdo, há cerca de 50 metros da pista. Na queda do avião sobre o humilde estabelecimento, três pessoas morreram esmagadas. Ficaram destruídos o bar e mais dois barracões. O piloto teve tempo de desligar todos os motores para evitar explosões. A frente do Douglas ficou bastante avariada, mas os 19 passageiros e quatro tripulantes nada sofreram. O processo foi arquivado porque “não houve crime a punir”. Porém a aeronáutica, em laudo, atribuiu o acidente à falta de manutenção da aeronave, já que um outro Douglas da VASP, acidentou-se no dia seguinte na cidade de Ribeirão Preto de pelos mesmos motivos. Quanto aos três mortos, nada foi dito, nem providência tomada.

Lupanar

Por muitos anos aquela enorme casa de mata-junta permaneceu um enigma para os moleques que moravam na Vila Higienópolis. Sabia-se por mais de uma fonte segura que aquela casa era mal assombrada, que estranhos casos paranormais ocorriam ali. Nas noites quentes de verão de 1972, dava medo passar em frente da casona da Rua Antonina porque as árvores ocultavam a luz dos postes e estava-se a algumas quadras do cemitério. Mas não havia perigo. O pior aconteceu antes.
No dia 2 de janeiro de 1962 foi quando tudo acabou. Por ordem do Dr. Juiz da Vara Criminal, em atendimento ao abaixo assinado das famílias de bem da Vila Higienópolis que não mais suportavam aquela “casa de tolerância, com seus espetáculos indecorosos, sua algazarra, movimento de carros diuturnamente”, pôs-se um fim às noites de orgia da inesquecível “Casa da Palmira”. Vazia, sem a farra e a alegria de suas meninas, aquela casa só podia tornar-se “mal assombrada”.

(Estes pequenos contos fazem parte do livro "Londrinenses" que irei publicar este ano)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Lembrando Benício


Hoje faz seis anos que o Dr. Benício se foi. Tudo bem, saudades etc. Apesar de ser uma pessoa séria e muitas vezes severa, era igualmente dotado de um senso de humor sensacional. Aliás, era um imitador fino e executava incontáveis "gags" de palhaço. Além de grande advogado foi um intelectual de poderes mentais respeitáveis, sendo também poeta e contista (estou para publicar o livro dele) e conhecia várias línguas. Mas sua maior capacidade era o raciocínio rápido, segundo ele puro fruto do exercício da atenção. Aí embaixo vai uma das traduções que o Dr. Benício fez quando tinha 23 anos. Esse foi o primeiro poema que aprendi decor e ainda trago presente na memória.


ALADIM

James Russell Lowell

Quando eu era um rapaz sem dinheiro
E vivia em adega molhada,
Nada tinha, nenhum companheiro,
Salvo a luz de Aladim, desejada;
Não dormindo se a noite era fria,
A cachola se punha a inflamar,
E com telhas de ouro fazia
Meus bonitos castelos no ar!

Desde então trabalhei noite e dia,
Já sou rico de ouro e poder,
Mas candeeiros de prata daria
Por aquele que nunca hei-de ter;
Eis, fortuna, – escolhe o que queres;
Nada dói-me perder, com haveres
Não construo castelos no ar!


(Tradução de Benício de Almeida Mendonça em 25-11-1954.)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Dia de Demissão


Certo dia o Chefe decidiu intimidar um de seus empregados: “– Meu funcionário se encheu de soberba! Fez um destrato comigo e faltou ao emprego sem avisar! Eu sempre jogo limpo!” Isto o Chefe jamais poderia admitir em sua longa trajetória de sacrifícios e conquistas pessoais. Era demasiado irritante, logo aquele obtuso funcionário que, por condescendência, em quinze anos estaria recuperado através de sua disciplina e terapêutica salarial. E o Chefe, de acordo com sua justiça, resolvia dar-lhe um arroxo acusando-o de mentiroso, no fundo só para ter o gosto de ver o empregado tremer feito vara verde. Assim conseguiria retomar as rédeas do controle, da ordem e progresso do Escritório. Caso contrário, o poder do Chefe se esfacelaria, a empresa se revoltaria, e um vacilo de personalidade se implantaria no coração dos demais funcionários feito uma praga. Mas não seria nada muito sério. Na verdade, tudo não iria passar de um espetáculo, no qual a discrição dos elementos, a ausência de pompa, salientaria o caráter austero de sua voz, de seus gestos, de seu olhar fixo na testa do infrator, de seu poder de esmagar alguém com as próprias mãos. Era só uma burla para que ele, o Chefe, pudesse rir do funcionário horas mais tarde pelo resto da vida. Rir daquele medo estampado na face, daquela dependência servil do salário, daquela repugnante e ciosa subserviência: não há nada mais engraçado do que um rato molhado de urina. Aquele chamado inesperado do Chefe na manhã lhe soara estranho. Era o primeiro dia de trabalho após o casamento do empregado. Então ele baixou os olhos por um segundo tentando respirar enquanto os colegas do Escritório riam gulosamente ao seu redor.

(Escrevi esse pequeno conto no glorioso ano de 1996.)

domingo, 12 de abril de 2009

Khristos Oskres! Feliz Páscoa!

Segundo diria o meu amigo Silvio Demetrio, com seu bom sangue ucraíno e ortodoxo: "Khristos oskres" - "Cristo ressuscitou", em grego. Segundo o Silvião me disse esta é a saudação pascal nas igrejas ortodoxas, e com a qual também se encerra as missas daquela igreja. A foto é do fotografo português João Antonio Martins Simão da Igreja Matriz de Malhada Sorda nas Festas de Nossa Senhora d´Ajuda. É isso aí. Feliz Páscoa aos que passam por aqui, este não lugar da rede.

sábado, 11 de abril de 2009

Aniversário do Paulo


Outono. Sol em áries. Hoje é aniversário do meu irmão, parceiro de escrita, o diretor Paulo de Moraes, um cara que estimula essa caminhada pela vida. Muita coisa pra dizer pra ele nesse dia, mas resumindo todo o afeto em palavras simples, os votos meus e de Jac e João de muita paz, saúde e alegria. Feliz aniversário! Toma umas por mim aí, Paulão. E capricha no churrasco!

sexta-feira, 10 de abril de 2009

João Antonio passeia por Londrina

João Antônio, escritor de categoria, jornalista apaixonado, homem que amava o povo brasileiro e compreendia como poucos a psicologia do malandro, do jogador de sinuca, do perdedor, dos alcagüetes, das meninas da zona e de toda aquela fauna de almas que fazem da noite um esplendor de glória e de dor. O escritor que falava da vida urbana, dos moradores dos bairros distantes com seus tipos populares e costumes diferentes, foi autor de um dos mais importantes livros da literatura Brasileira: Malagueta, Perus e Bacanaço publicado em 1963, e que faturou o maior prêmio literário do país, o Prêmio Jabuti, quando João Antônio tinha 26 anos. O conto que dá nome ao livro conta a história de três sinuqueiros escolados, se virando na noite paulistana para tirar uma grana no jogo. Uma verdadeira aula que mostra que no perde-e-ganha da vida em que “a gente cai, a gente levanta, na queda já se aprendeu. Pode ser que ali na esquina a gente dê sorte.”

Vida

João Antônio em nasceu em Presidente Altino, distrito de Osasco, na grande São Paulo, em 1937. Nasceu numa família pobre. Seu pai era um português dono de botequim, e sua mãe uma mulata batalhadora como toda mulher humilde. Rueiro, João começou cedo na arte da escrita e da vida boêmia. Descobriu o cigarro, o conhaque e a cerveja, as mulheres da vida (suas primeiras namoradas), a mesa de sinuca e toda a alta malandragem de São Paulo. Em pouco tempo, pai, mãe, avó, e até seu irmão mais novo concordavam num ponto: João era a “ovelha negra” da família. Só que João tinha talento com as palavras. Escrevia a mão mesmo, dizendo o texto em voz alta. Só depois datilografava. Gostava de sentir palavras uma por uma, curtir o som, o sabor, o suor, a sensualidade, a doçura e a porrada de cada palavra. Mas não enfeitava. Era um escritor sem frescura. João também dizia que qualquer boteco é lugar bom para escrever, quando quem escreve tem a gana de dizer algo importante pro leitor. Um escritor honesto e decente. João Antônio nunca escreveu com hipocrisia, pra agradar, pra puxar o saco de quem quer que seja.

Aos 27 anos João Antônio foi convidado para ser repórter do Jornal do Brasil e se mudou para o Rio de Janeiro, cidade que escolheu como residência fixa. Não parou mais. Além de ter escrito mais de quinze livros, João trabalhou intensamente como jornalista nos maiores jornais do eixo Rio-São Paulo, participando da equipe que criou a lendária revista “Realidade”, verdadeiro marco na história do jornalismo inteligente de nosso país. Foi João também quem criou a famosa expressão “imprensa nanica” para designar os jornais alternativos do período da Ditadura Militar que se instalou no Brasil em 1º de abril de 1964. João andou por todo o Brasil, conheceu muitos Estados e cidades, sempre com seu olhar no submundo, onde as coisas costumam ser nuas e cruas, sem máscaras, e cujos enfeites servem mais para iludir do que para adornar. Esse universo onde malandros e otários disputam um jogo malicioso onde arrancar um trocado, faturar o rango, a birita, a mulher, o narcótico, significa a própria sobrevivência da espécie.

O escritor das ruas acostumado com a malandragem paulista e carioca um belo dia resolve baixar em Londrina a convite de amigos jornalistas. Chegou e pasmou. Entre 1974 e 1975, João veio trabalhar no jornal “Panorama” de Paulo Pimentel. Na redação estavam: Narciso Kalili, Délio César, José Trajano, Domingos Pellegrini Jr; os cartunistas Jota e Jayme Leão, Mylton Severiano, Bernardo Pellegrini, a fotógrafa Elvira Alegre, entre muitos outros profissionais de calibre. Nem bem João Antônio chegava a Londrina e já a direita municipal tem um chilique. Corria a notícia de que Paulo Pimentel “trouxe um bando de comunistas” para fazer o “ Panorama”.

João Antonio: um rolé por Londrina

As matérias que João Antônio escreveu no “Panorama” são verdadeiras obras-primas literárias. Londrina é radiografada em toda a sua deslumbrante contradição de cidade de muitas raças, grana e paixões proibidas. Não havia dúvida. Assombrado com a poeira vermelha que manchava os carros, as roupas, as unhas e até as notas de dinheiro, o escritor sacou que Londrina era um inferno e céu enlouquecido onde ricaços e prostitutas, picaretas e jacus encenavam o mesmo velho jogo de malandros e otários que ele havia longamente observado ao redor das mesas de sinuca de botecos muquifentos de São Paulo e Rio de Janeiro. Só que em Londrina havia corrido dinheiro grosso. Dinheiro do café. Mesmo chegado pouco antes da trágica geada de 1975, que arrasou os cafezais do Norte do Paraná, João Antônio conseguiu compreender que a jovem Londrina era uma cidade rápida, uma cidade moderna em plena transformação, onde “o mais bobo acende o cigarro no relâmpago”.

Logo de cara, João notou o sotaque londrinense, com seus “r” mordidos, uma jeito de falar caboclo que lembrava o interior paulista. Sacou de prima que a referência cultural do Londrinense não era capital Curitiba, mas São Paulo. Como malandro vivido e jornalista antenado, a primeira providência foi catar um ônibus e dar um rolê pela cidade vermelha para entendê-la mais. Meteu-se num ônibus que fazia a linha Parque Waldemar Hauer/Shangri-lá. Percebeu que o londrinense é menos expansivo do que o povo do Rio de Janeiro, com sua camaradagem, seu narcisimo gingado; mas era mais respeitoso e atencioso do que o paulistano. Para João, o povo dos ônibus era humilde, meio quieto. Não tão festivo quanto o carioca, mas não tão carrancudo e fechado como o da capital paulista. João desceu no Shangri-lá e contemplou as alamedas, as casas chiques com seus grandes jardins. Na sua visão o Shangri-lá lhe lembrava um trecho de uma cidade do interior Estados Unidos. Porém, atravessando a antiga linha de trem, sentiu que caía num outro mundo: o Jardim do Sol, para ele, ali começava o mundo da pobreza, uma outra cidade, uma Londrina de pés no chão. Entre os bairros, a diferença: riqueza e pobreza, mansões e favela — o ar parado e “mais quente do que o Rio de Janeiro” deixou João Antônio com a pulga atrás da orelha: o que era essa “misturação humana” onde cabem milionários, miseráveis, polacos, italianos, japoneses, libaneses, mulatos e malucos?

João, mestre da arte de bater perna, gasta sola de sapato, desce pras bandas da Rua Sergipe e se depara com a prostituição de rua, com suas meninas e travestis com ar de cansaço e a cafetinagem fuleira. Fuçador, poeta da precariedade humana, João cruza a Vila Higienópolis onde vê as pessoas mais bonitas da cidade, segue pela Avenida da Saudade, entra no cemitério João XXIII, de onde avista algumas casas de madeira dependuradas numa encosta do vale do Córrego Água Fresca. Era a famosa a Favela do Pito Aceso. João vai lá e é bem recebido por um garoto que lhe explica em detalhes todas as manhas da criação de galos de briga, “esporte” que fazia a fama da favela em toda Londrina.

Já num outro extremo da sociedade, numa noite João vai parar, convidado por amigos, numa bem comportada festa da classe média londirnense, com suas conversas amenas, pessoas recatadas e ambiente sem graça. É, pela primeira vez em sua vida, convidado a se retirar: “O senhor me desculpe. Mas não posso aceitar pessoas que não conheço em meu apartamento.” João Antonio sai. Mas, se segura o mais que pode e elegantemente diz para a dona da casa: “A senhora faz muito bem em preservar a dignidade de seu lar. E eu faço questão absoluta de não conhecê-la”. Com certeza, a distinta e desinformada senhora não sabia que estava botando pra fora simplesmente um dos maiores escritores do Brasil.

A zona e o poeta da noite

Mas o que encantou João Antônio foi compreender de onde vinha a mistura social, cultural e racial de Londrina. Começou a compreender porque as pessoas com grana comiam como reis. Era a herança dos tempos da riqueza cafeeira onde um simples taxista poderia ser produtor rural, dono de casas de aluguel e pescador inveterado. Foi assim que João Antônio escreveu “Os Anos Loucos de Londrina”, uma obra-prima sobre os tempos fabulosos de Londrina no auge do café, mais especificamente entre os anos de 1949 a 1953. No texto, João fala daquilo que tornou Londrina famosa em todo Brasil: a sua fantástica Zona do meretrício, onde pululavam picaretas, rufiões, mulheres lindíssimas que chegavam aos “lotes” no aeroporto e desfilam em carro aberto, cantoras e cantores famosos, atrações refinadas para entreter fazendeiros riquíssimos, vendedores abridores de terra. João analisa o paraíso “pra baixo da linha”, onde em temporada de chuva, o sujeito poderia ficar vivendo longe da repressão moral do centro da cidade em dias de festança e gastança, comendo, bebendo do bom e do melhor no restaurante do Toninho.

João Antônio descreveu bem aquele momento onde “noivos desmanchavam compromissos, fogem levando a concubina consigo. Maridos desnorteiam-se, rapazes bonitos viram gigolôs, amores inesperados explodem, gloriosos e malditos. Há tiroteio na disputa de uma mulher, há tentativas de suicídio. Era um ambiente de amor espúrio e camaradagem entre boêmios alegres e endinheirados, como jogos e arrumações. Naquelas libações do brega, reunia-se o alto mundo do café no Brasil, firmando negócios de compra, venda, troca, exportação. Todo grande negociante de café é, em geral, grande boêmio, maneja dinheiro grande e viaja intensamente.”

Casas de luxo e prazer eram a Diana, entre tantas outras. O dinheiro construía edifícios moderníssimos, mas pagavam devassidões e excessos do mais alto luxo. Na zona não se tomava cerveja, que era coisa de pobre. Tomava-se whisky legítimo, vinho português e champanhe francesa. As camas eram arrumadas com lençóis de linho. E havia toda uma técnica de romance, diz João Antônio. “Não se ficava de imediato com a mulher escolhida no bordel. Havia uma técnica de romance, namorava-se, ia-se duas ou três vezes, presenteava-se, mimava-se. Só depois, o ato. Também as profissionais não fixavam preço, taxativo, inflexível, frio, duro, antipático. Mas isso gerava um pagamento inesperado, decuplicado (10 vezes maior), que poderia jorrar a qualquer momento. O lucro era certo e grande, no fim.” Os homens do café e os corretores era generosos. Mas havia preconceito, claro. E feroz. As prostitutas tinham hora certa para andar por Londrina.

João Antônio, amante da noite, escritor e jornalista de fé, poeta dos humildes, dos malacos, dos perdedores, dos duros, dos desprezados, dos feios, dos marginalizados, era um ser humano dotado de intensa sensibilidade para o sofrimento e com coração imenso repleto de compaixão por essas figuras sem história, mas cheias de vida. Passou por Londrina e deixou algo dele. João Antônio não poderia ser mesquinho jamais. Para ele escrever era “um ato de coragem e humildade”. Morreu em 1996, em São Sebastião do Rio de Janeiro.

(Escrevi essa artigo para a Folha Norte em 2006 por ocasião dos 10 anos de falecimento do autor que teve uma passagem memorável pela velha Londrina.)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

JOHN FANTE - 100 anos

Hoje quem estaria apagando 100 velinhas no bolo é esse italianinho invocado da foto, nascido nos EUA. Sujeito cascagrossa, petulante, doido por um rabo de saia, e um coração dotado de incrível ternura. Estranho mesmo que esses terremotos na Itália estejam acontecendo nos Abbruzzi, região de onde vieram os Fantes.

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Fante teve momentos de sucesso com seus romances "Pergunte ao Pó" e "Cheio de Vida" mas, por ter uma obsessão pela sobrevivência, aceitou ser roteirista de filmes B de Hollywood para tentar ganhar muito dinheiro (não ganhou) deixando de lado sua verdadeira arte: a de prosador comparável a Hemigway, com lampejos de Dreiser e Dostoievsky. Tendo caído no ostracismo literário desde os anos 50, foi "redescoberto" pelo escritor de rua Charles Bukowski em 1977. O tragicômico da vida de Fante foi que ele morreu justamente quando sua obra começou a ser aclamada no mundo todo.

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Quando moleque cheguei a assistir na "Sessão da Tarde" alguns filmes com roteiro de John Fante, sem saber. Um deles, a história de um santo que voava. No original chama-se "The Reluctant Saint" de 1962. Lembro-me de uma cena em que o grande cardeal resolve largar toda a pompa do mosteiro onde se hospedara e resolve ir para a estrebaria e conversar com o rapaz humilde que cuidava dos animais e que os padres não deixavam estudar no seminário. Os dois comem algo assado no espeto. O Bispo saca que o rapaz é uma alma pura e sublime. No final aquele rapaz santo (agora aceito pelos padres) saía caminhando em procissão com os colegas e precisava ser puxado pela batina senão saía voando. Crença em milagres à parte, eis uma bela imagem de uma alma mais leve do que o ar. O santo da história de Fante é São José de Cupertino, do século 17.

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Outro que vi era um seriado assinado por Fante: "A História de Maya", sobre a amizade de um menino indiano com um elefante. Isso deve ter passado na TV por volta de 1969 ou 1970.

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O que interessa é que Fante escreveu grandes livros: "Espere a primavera, Bandini" (1938); "Pergunte ao Pó" (1939), "Sonhos de Bunker Hill" (1982). Fante é considerado o grande escritor da cidade de Los Angeles, o que melhor a cantou em prosa. Sua obra é hoje estudada como um dos primeiros registros da vida dos imigrantes na sociedade americana, e por isso tem um caráter profundamente social. É o caso da paixão cheia de preconceitos de Arturo Bandini (imigrante que se achava americaníssimo) pela mexicana Camila Lopez em "Pergunto ao Pó", aliás uma história sensacional de linda. E pensar que Fante se encontrou com Coppola pessoalmente porque o diretor queria filmar "Pergunte ao Pó" com Robert de Niro no papel de Bandini...

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Sobre John Fante tem muita coisa a ser dita de bacana. Uma delas é que "Pergunte ao Pó" chegou para nós pela Brasiliense nos anos 80 e fez a cabeça. A tradução era de ninguém menos do que Paulo Leminski. Li não sei onde um diretor de teatro dizendo com um pedantismo de "dono de Fante" (sempre tem esses tipos por aí) que Leminski traduziu Fante sem conhecer Fante direito e outras baboseiras. O cara não atinou que nem nos EUA o Fante era conhecido e estudado quando Leminski traduziu (em caráter inédito) no Brasil em 1987. Aliás, a biografia do Fante é de 2000. Recentíssima, portanto. E pra encerrar a pinimba, sejamos francos: é ou não é demais ler Fante traduzido por um poeta prosador como Leminski?

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Sempre com uma literatura autobiográfica, "Pergunte ao Pó" é na realidade a saga do próprio John Fante, pobre de marré, com sua máquina de escrever num quartinho infecto em Los Angeles, tentando se tornar escritor, escrevendo cartas e mais cartas para aquele que se tornaria seu mentor, H.L. Mencken que, surpreendentemente, respondia a TODAS as cartas do jovem Fante. Há inclusive um imenso volume com estas cartas já publicado nos EUA. Vejam só como Leminski deixa Fante falar com graça e ritmo sobre esse rapaz que sonha ser escritor numa cena em que transparece um humor indisfarçavelmente italiano:

"Ninguém nunca recebeu tantas cartas de Hackmuth, só eu, e eu saía por aí com elas lendo e beijando cada uma. Eu parava na frente da fotografia de Hackmuth chorando como uma vaca, gritando que desta vez ele tinha apanhado um dos bons, um dos grandes, um Bandini, Arturo Bandini, eu."

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É muita coisa pra dizer de John Fante. Mas nesses 100 anos de nascimento, eu só queria dizer a ele, em qualquer lugar onde ele esteja, que cada um dos seus livros vão continuar me emocionando pra sempre. Que eu não seria o que sou sem eles. Que ele está na minha cabeceira, porque, sim, ele é um dos grandes. Feliz Aniversário, Bandini!

terça-feira, 7 de abril de 2009

VENDE-SE METAFISICA


— O que ele disse do crime, ninguém sabe. Um estandarte, uma apólice e lá está ele: uma três por quatro lateral. Nada ficou esclarecido, mulatas drogadas apareceram sorrindo no apartamento dele horas depois. Sabe, queriam detonar, descolar um brauzete, e ir prums bailes numas, claro, com uma sete meia cinco cintilante sorrindo dentro da bolsa, dispostas a apagar o cara mesmo. Nunca ficou provado se eram ou não eram peças chaves. Semanas atrás levantaram certa possibilidade duvidosa. Mas o homem foi cético. Não queria arriscar um palpite, talvez mais certeiro, que chegasse ao centro da questão: responder uma porção de perguntas que ficaram pedentes desde aquela época, desde que aquele caso tirou o sono de muita gente. Bom, no fim das contas as mulatas faziam parte de um coro gospel, tinham lançado CD e tal, farras em Miami depois de serem batizadas nuas num rio, louvores, descarregos, esses troços.

Realmente, digna de nota a trajetória deste homem singular, se é que podemos chamá-lo assim. Era cauteloso, discreto, metódico, bem apessoado, mais ao mesmo tempo, audaz, grosseiro, vulgar e perigoso. Nunca puxou uma etapa, pelo que eu saiba. Acredito que o ponto de intersecção de seu estranho caráter era a inteligência rara, a cara de pau, e a maneira com que usava os recursos que tinha à sua disposição. Evidente: comunicador fantástico. Manjava de microfone e de câmera como ninguém. Manobrava o cara e coroa do real irreal, do visível invisível. Era uma profissional. É bem verdade que naquele seu estilão. Com as receitas de sempre: pagava atores desconhecidos para encenar as tragédias de massa, tipo marido-que-bate-na-mulher-e-não-traz-comida-pra-casa, então o sujeito começa a beber, espancar os filhos, etc. Nuvem de lágrimas, entende? Tinha também a esquete do cara-que-cheirava-e-bebia-pinga — coisas meio contraditórias — naquela linha músico-viciado que “Quanto mais eu tinha mais eu usava e não queria mais sair daquela vida”, saca? Falsos amigos, maus conselhos, pequenos crimes, mãe que leva camisa dele pra benzer, uma escalada de misérias que faz com que as pessoas só pensem numa coisa: libertação. A receita fazer o cara trocar um vício por outro. O tóxico pelo divino. Dá resultado por causa da fissura. Esse é o segredo: a fissura. Num ou noutro caso ela sempre permanecerá a mesma.

Um elemento muito pirado mesmo. Era um camaleão. Bom, isso nem precisava dizer. Olha, tem gente séria que diz que ele atende uma faixa de público muito interessante, que botou um produto competitivo no mercado e agora taí. Só que, tanto tempo depois, o negócio explodiu. Metralhadoras, coletes a prova de bala, diversos calibres, arsenal da marinha, coisas de praxe. Esses caras não têm limite mesmo. Uma vez ouvi uma dele... Evidente, esse tipo de cara só arma coisa grande, estruturada, muita gente envolvida, celulares, computadores, parará. Tive um amigo que caiu nessa. Diz que se converteu do fundo da merda da alma enlameada dele. Só que meu ex-chapa montou uma fábrica, sei lá, uma estamparia e começou a bolar umas camisetas, coisa de primeira mesmo, descolou franchising de uma gravadora gospel americana e estourou de ganhar grana. Não sem antes adicionar à sua mensagem sorteios de BMWs e viagens à Terra Santa, etc. Porém, centenas de almas foram pro Procom...

Nessa época ele tava casado com uma maluca que parecia que tinha um enxerto de tigre de pelúcia na cabeça. Só a vida dessa mulher já dava um filme. Começou cedo, nas quebradas dos 60. Esoterismos, em geral. Lembro de uma reportagem que fizeram com ela. Ela passava uma coisa erótico-angelical. Vendo na tela você não conseguia despregar os olhos da cara dela. E ele dizia sussurando com um lábio carnudo: “Deus é uma coisa quentinha por dentro.” Deixava qualquer um excitado em Cristo. Doido pra gozar as graças divinas. Enfim, o negócio envolvia TV. Era um espécie de sex-shop-religioso, saca? Eu me perguntava: imagina pra cabeça desse povo?

No fim das contas ninguém sabe dizer de onde eles apareceram. Argentina, supõe-se. Mas enfim eles acabaram entrando na vida de muita gente. Eu acredito que eles começam a aparecer como cópia de alguma coisa. Imagina uma prateleira de copos do mesmo modelo e tamanho, uma prateleira imensa só com um único tipo de copo, se você tem sede e precisa resolver o problema de não ter copos, você vai, estica a mão e pega. Não tem que pensar muito. Então, eles são justamente esta prateleira. Daí dá pra entender como entra o papo de libertação. Dizem que essa mulher escreveu uns livros antes de juntar com o cara. Uns livros esquisitos, adoradores de Rá, misturado com várias conversas, fácil de compreender, bom pra dar de presente pras pessoas no natal. Um amigo fez uma excursão até o lugar onde era a sede da seita. As famosas excursões que ele promovia todo mês. Alugavam uma van. Era numa chácara, rolou um papo de lavagem cerebral, surubas rituais. Até que engravidaram a filha de um deputado federal. Abafaram. O cara era forte. Abafaram. O cara e a mulher não foram em cana dessa vez. Tinha um monte de relações no judiciário. Até que ouvi que os negócios tinham melhorado. Foi em Miami ou Orlando? Miss Brasil-EUA naquele carnaval pra gringo ver. A mina do estado de Montana faturou e os caras ficaram na cola dele. Coisas como faixas de miss com cocaína no forro, um anúncio no New York Times. O golpe da pirâmide de dólares também colou entre os burgueses. Consolaciòn! Este era o nome dela. Ou seja, antes, e não depois do chute. Explodiram o bunker deles e não descobriram muito, só uma coleção de camisas de futebol. A sorte os acompanhava como um espectro.

(Escrevi esse conto em 1995 após passar incontáveis madrugadas assistindo programas religiosos. Aliás, tenho um interesse grande por eles independentemente da confissão religiosa, seita ou sociedade caritativa com ou sem fins lucrativos. Tal predileção inclusive foi motivo de efusivos protestos de familiares e amigos que tentavam demover-me de tal prática. De qualquer forma, vai aí o produto de minhas antigas vigilias transcendentais)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

SR. FRIO


Gothan City, urgente: está foragido o perigosíssimo celerado que imagina dominar todos os bancos de memória virtual e que atende pelo sinistro nome de Sr. Frio. Aquele, que pode congelar os instantes e refrescar sua memória, - Seu vigarista, que pensa estar assaltando meu sonho, quer dizer, a sua realidade!
Eu, Sr. Frio, controlo você. Eu estou aqui e vou lançar lufadas de ventos gélidos contra os himalaias do seu pensamento, minha cara! Deixe-me olhar bem para os seus olhos. Você definitivamente não está passando bem. Sua pressão arterial está baixando. Você está achando tudo rápido demais e seus sentidos estão subindo num elevador infinito.
Imagine um horizonte totalmente branco. Você está olhando por uma luneta, um infinito círculo branco. Tanto faz você afastar ou aproximar a imagem. Você está sendo engolido por um minúsculo ponto branco. Caia nele. Sinta-se caindo de costas do maior edifício do mundo num vácuo abissal e tudo isso dura um instante que congela uma eternidade.
É como ter consciência de que não há mais consciência de que eu, Sr. Frio, estou esquiando no seu intelecto e ordeno que você pare e fique olhando para mim como meu escravo, seu impostor! Eu habito a sua alma naquela parte que você nem desconfia. Conheço seus pontos fracos e o seu modo de agir diante de uma situação como esta.
Você não consegue piscar. Você não consegue se afastar desta corrente de palavras absolutamente absurdas. Ouça os ruídos ao seu redor. Você mal consegue pensar na vida lá fora te chamando para agir. Não, não ouse fazer isso! Eu não admito que você chegue ao...

(Esse é um típico post de segundona braba. Valeu. Escrevi isso lá pelos longíquos anos 90. A foto é do ator George Sanders caracterizado de Mr. Freeze no seriedado Batman anos 60. Sr. Frio é um dos belos personagens da não menos instigante galeria de vilões que aterrorizam o insone Homem Morcego)

sábado, 4 de abril de 2009

Poema de Mirian Paglia Costa III


Colar de Maravilhas

I

contra sarampo é
pijama vermelho de bolinhas
chá colhido no quintal

meninas enjoadas saram
num zás-trás
mamando leite com hortelã
mas no colo

nos óculos do avô
reflexos distraem o medo
de retratos, mortos e fantasmas

bichos noturnos não resistem
a história bem contada

a mão roda a colher
roda, roda
evita derrames de fervura
três vezes na panela
e verte a massa enfumaçada
no prato sem desenho
mingau de aveia esquenta o bucho
mão de ferro não esquenta
ainda
os traseiros dos levados
nervos nem fervem nem derramam de manhã

olhos amorosos são remédio
e rezar o santo anjo anoitecendo’

luz amarelenta
vela febres contra escuro

um jeito no lençol, dobra no cobertor
tudo consola
tudo são certezas

(Do livro “Colar de Maravilhas” Edição da Autora/Distribuição 34 Editora. Ilustração de Darcy Penteado)

Poema de Mirian Paglia Costa II


O ser e o nada

quando o índio morre
conta o sertanista
sobe para o ivat
sua terceira alma
a incriada por homem e mulher
essência pura

mas no ivat, a aldeia do céu
onde corpos balançam sem cansaço
onde não se planta nem se caça
só fica a alma forte
a astuciosa
que vence na aldeia dos pássaros
última prova
a fúria das aves numerosas

sob olhos do falcão
senhora da terra e seu juiz
que devora a alma derrotada
a vitoriosa veste plumas
de toda a passarada que venceu
eterna glória

(De "Notícia do Lugar Comum" - 34 Editora)

Poemas de Mirian Paglia Costa I

Bar Seleto

vagas mensalistas aqui estacionam
pernas rodadas, caras batidas
buscam, quem sabe?
a vitamina que devolve a juventude

do vento do pastel aspiram sonhos?

sentam moles bundas nos banquinhos
olhos soltos sobre incertos objetos
e bebem
engolem o suco de tantas frutas
como se fosse lava
engolem tudo

diz-que vagabundas nunca morrem
pelo menos, só vivas aparecem no jornal
diz-que também não fazem falta
trocam a peruca
engordam, emagrecem
estão sempre no lugar sabido

mas na hora vaga que precede o dia
bebem vitamina e comem
como crianças
o pastel que despenca seu recheio

– pendura a conta, ainda gritam
os saltos gastos já batendo na calçada

baiana, luzia, inalda, roseni, palmira
elas têm pressa

quando amanhece
todas as putas viram fadas



(de "Notícia do Lugar Comum - 34 Editora)

Mirian Paglia Costa, poeta.

Mirian Paglia Costa nasceu em Londrina em 1947. Pianista de formação, Mirian esteve presente em momentos importantes da vida cultural londrinense, sendo uma das criadoras do festival universitário de teatro, além de ter participado de peças teatrais na virada dos anos 60 para 70. Mora em São Paulo desde 1974. seu primeiro volume de poesias “Colar de Maravilhas” lançado em 1981 recebeu o prêmio de Revelação Literária da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Sua poesia foi elogiada por nomes como Carlos Drummond de Andrade, Millôr Fernandes e Paulo Rónai. Em 1997, lançou pela 34 Editora o volume de poemas “Notícias do Lugar Comum”. Numa entrevista informal com Mirian em seu apartamento em São Paulo, a poeta revelou que sempre escreve pensando em Londrina. A foto é de Jacqueline Sasano.


sexta-feira, 3 de abril de 2009

Wavelenghts

O professor Aristides enxergava o infinitamente pequeno. Sua energia vital era infinitesimal e, por conseqüência, era capaz de aparecer sem ser notado, de passar completamente despercebido mesmo entre os mais medíocres mestres de sua disciplina. Talvez porque com o passar do tempo estivesse ficando esquecido ou porque envelhecer para ele fosse um lento apagamento de rostos conhecidos, optou por calar-se abdicando de toda e qualquer vontade de pensar, falar ou escrever.
Em seu silêncio remoía particularidades de uma polêmica contra um jovem colega da qual saíra derrotado, concluindo daí que sua existência não passara de um sonoro fracasso, o qual, posteriormente, o conduziria ao alcoolismo e ao mais doloroso dos descréditos acadêmicos. Afinal, o falecido professor Aristides, mestre de física de um importante colégio estadual de nossa cidade, veneradíssimo por seus alunos, homem dotado de minuciosa inteligência, perito na paciente decifração de espectros de ondas, cristas e manchas solares, na opinião de muitos, era quase um tipo popular.
Ele se sentia muitíssimo só naquela noite de inverno em que a chuva urdia sua música melancólica chocando-se contra as vidraças. Contudo, por uma fração de segundos, pensou na imperceptível diferença entre o joio e o trigo, na mínima dimensão do grão de mostarda em relação à imensa árvore da qual nasce, na fugacidade do último hálito de perfume de uma flor que murcha. Então o franzino professor soube que a alma vale o peso de um sonho. Na sala de aula vazia seu rosto enrugado se iluminou pela primeira vez depois de tantos anos. Ele cambaleou em direção ao quadro negro e rabiscou, finalmente, a grande fórmula da sua vida. O giz estava úmido. Jamais pôde ler o que escreveu. Quando a zeladora o encontrou, relâmpagos refletiam nas grossas lentes de seus óculos.

(Conto publicado no jornal Espaço Plural - Unioeste, ano IV, n. 9 - setembro de 2002)